domingo, 3 de abril de 2016

TONTURAS NARRATIVAS

UM CONTO, PARA AMANSAR UM TONTO

                               O CARVOEIRO FANTASMA

                                   O suor escorria pelo rosto.  Sobre os ombros, uma leva de madeira. Pulsavam suspiros na  cacunda carregada. Anos e anos derrubando árvores conferiram-lhe um privilégio nefasto: ouvia o choro daqueles corpos. Os restos de seiva queimavam a pele. A floresta rugia lamentos diante do fogo das necessidades.Algumas árvores  dobravam em idade a sua própria. Não aprendera as letras. Não tinha leitura. Se a vida lhe dera oportunidades não as tomara para si. Trabalhava para a morte da floresta.Troncos e galhos alimentavam o forno de barro. Quando cheio de madeira viva e chorosa, barreava-se a boca com  terra molhada. Um respiradouro marcava o lugar por onde o fogo alimentaria sua vontade e cuspiria a fumaça pesada. Fogo brabo.Culpado, o corpo dobrava-se no esforço para não vergar sob o peso que vinha de dentro. Os fantasmas das árvores rodeavam-no sem tréguas. Via e ouvia. Um dia depois do outro. Dias sem começo nem fim. As marcas de sua vida estavam todas ali, agarradas aos troncos que se queimavam e aos copos da branquinha. Bebia sim. Como todos os outros. Bebia ao cair da noite esperando não amanhecer o dia. Mas a vida era teimosa. Acordava ainda mais iracundo a repetir-se quase vivo. Doía a alma de dentro para fora.
                                   Em dias de muito vento, sabia que um jeito ou de outro alguém tentaria segurar a farinha no bojo das mãos. Era aviso de rezinga, de briga certa. Tal como acontecera naquela noite de calor dobrado.Reunira-se com os demais carvoeiros para beber da pinga forte. Começo de uma despedida sem volta. A cachaça pesada descera rápido para o estômago e abrira buracos escuros na cabeça dos homens cansados. A desavença iniciou do jeito que sempre inicia: por qualquer motivo sem razão. Os facões saltaram em meio a conversa desconexa: carvoeiros tombaram sobre o chão imundo. O sangue voltou para o ventre da terra levando a alma de dois homens. Esgotava-se ali a caminhada de cada um deles. Tempo perdido na floresta, tempo perdido na vida encruada no barreado que consumia os que ainda estavam em pé. Quem estava em pé naquele acampamento dos infernos?
                                  O dia não amanheceu diferente, mas engoliu a noite em tragos ardidos que agora queimavam a boca do estômago. Não se faz velório em terra de homens perdidos.Embaixo de muitos palmos de terra, devolve-se o corpo para o lugar de origem. Lá estavam agora aqueles que um dia tinham sido companheiros de queimada. O fogo pedia alimento. Outras árvores arregaçavam suas raízes enquanto ele escutava os pedindo por um socorro que jamais chegaria. Ninguém  poderia ser salvo. A floresta agonizava deixando as feridas abertas para qualquer um ver. Ele via. Via e ouvia. Sua cabeça latejava desde a noite anterior. A cachaça, mais o cheiro do sangue derramado, afetavam os pensamentos.Variava das ideias. Não queria barrear o forno recém-construído. Desejava deitar o corpo para não mais levantar.
                                  No tosco acampamento, carvoeiros prestavam silêncio aos homens mortos. Ainda beberiam os defuntos, mas só depois de alimentar as bocas fumegantes dos fornos abobadados.  Foi um dia mais escuro do que costumavam ser escuros todos os dias. À hora da beberagem,  os nomes dos carvoeiros saltavam de boca em boca junto com mais um trago para a despedida derradeira. A escuridão do dia abria-se para aumentar a escuridão da noite. Bebiam os companheiros. Era pau e pedra. A caninha descia feito veneno e subia comendo a razão. Anuviava os olhos que se perdiam por outros lugares, outras florestas, ou sabe-se lá por onde o sujeito andara. A cachaça não era amiga dos segredos, mas facilitava a desconfiança sobre o lugar onde eram escondidos. Conhecia o sentimento de pisar nas nuvens e deixar a cabeça pender sobre o peito. Era assim que a vida o levava. Era assim que levava a vida!


Ivane Laurete Perotti