domingo, 10 de abril de 2016

TIJOLOS DE VÁRIAS MÃOS

CIRANDA DE PEDRA-POMES

- os cavos tijolos da democracia -

“A única arma para melhorar o planeta é a Educação com ética. Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor da pele, por sua origem, ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar.” Nelson Mandela

                                       Iniciava o dia antes do sol beijar as orelhas do horizonte. Lava-se para deixar os sonhos por debaixo do travesseiro desgastado. Tantos depósitos ali jaziam que, em sua enxerga, conjuravam-se  antigas mortalhas: catre das vontades. Fazia sem ver o caminho para a rua e na rua, não via o caminho que avançava: chegar ao destino era ordem ditada  do estômago para os comandos motores e deles para o ir e o voltar sobre os passos de sempre e sempre, amém! Bocas de barrigas vazias  aguardavam a farinha de tantas lombrigas e, sem as letras da escola, cabia-lhe dar à sebosa carta a leitura da não alforria. À mão, um pedaço de púmice tão esponjosamente gasto quanto os gases de seu intestino. O naco da pedra vulcânica comia-lhe os calos das mãos, da alma, da identidade, enquanto roía pelas beiradas a ansiedade de mais um trabalho /des/garantido: cidadão livre, concorria com a ciranda de outras pedras.
                                         Seu nome: Alfabeto. Ingênua ironia da mãe que conhecera Adalbertos, Fabricianos, Beneditos e Tibúrcios ,  amigos da vida acantoada, uma vez que a solidão não se dá a conhecer de cara lavada e as faces das fomes escondem o gosto pela destruição da alma. Ia. Feito o dia que traçava o destino de algumas horas. E no ponto das quatro esquinas, armou-se diante do farol: um sinal e chegava-lhe a vez de, por variações de segundos, oferecer as mercadorias de viagem urbana. Verde: hora de saltar para o meio-fio e sustentar às costas o sol de abril enquanto protegia com a sombra do corpo, as balas de papel duvidoso. Vermelho: tempo de bater nos vidros escuros dos veículos obrigados à parada crucial. Fechados! Fechados! Fechados! Verde para o suor que escorria da testa, dos braços e lhe grudava a velha camisa ao corpo .
                                          Seu apelido: Beto. Resultado variável da lei de menor esforço  e das brincadeiras soltas entre as crianças dos primeiros anos. Poucos anos até entender que ser criança  era estar na infância mal nutrida do outro lado de um muro intransponível. Nasceu com a cor do ébano e dele herdou a resistência por tempo menor. A nobreza não lhe dera o lugar da graça, e como tantos outros, resignou-se à cadência das pedras que rolam morro abaixo. Não queria ser pedra, queria ser gente. Mas não entendia da alquimia social que provoca borbulhas no caldeirão das diferenças. Nem dos tijolos ocos que lhe sustentavam o espaço da cidadania inexistente. Ainda assim, rolava. Rolava os dedos contra a pedra-pomes como se lhe então clareasse a pele e as ideias. Trabalhado por outros momentos, quando tivera um emprego de carregador, servente de obras, jardineiro, limpador de qualquer coisa, agora não sonhava. Ia e voltava das quatro esquinas disputadas no adiantado das madrugadas escuras. Voltava. A farinha esperaria por mais um dia. As mercadorias também retornavam e não se serviriam à mesa das fomes acumuladas, pois as madrugadas colavam-se umas às outras: a necessidade encurtava o espaço das vendas. Vendas? Não vendera. Os vidros escuros guardavam o medo das pessoas e a indiferença do muro levantado.
                        No caminho de volta, um tijolo cavo encurtou-lhe a vida. Um tijolo em muitas mãos. Mãos forjadas no preconceito, na vilania dos julgamentos desordenados: precipício de uma sociedade incivilizada.
                          Alfabeto morreu como veio ao mundo: sem a leitura em voz alta de sua carta de cidadania.
* Texto baseado em fatos reais; nome extraído do obituário: CNF/Brasil.


Ivane Laurete Perotti