domingo, 15 de maio de 2016

GORGOMILOS SECOS

CRÔNICA DE UM CAOS ANTECIPADO

- dizendo o que já foi dito e permanece inaudito -

" O Brasil é um asilo de lunáticos onde os pacientes assumiram o controle." Paulo Francis

                                       Quando algumas vozes abriram as pregas vocais, era tarde. Restos do pendão auriverde  se lhes descia goela abaixo. Às classes categorizadas e mantidas abaixo da média de sobrevivência física, intelectual e econômica apresentou-se o diapasão da vontade: acostumar-se ao inaudito e trágico ferrolho da suposta democracia, ou morrer em estado de inércia comandada. Um ou outro eram um e outro: a mesma lâmina com apenas um lado aparente.
                                       No ápice das decisões que avançam as madrugadas insones, um discurso debate-se por entre as paredes dos muros históricos: "...  o ser humano se adapta a tudo, inclusive ao caos."(Cury)
                                     Acostumadas à curva e ao peso do relho, algumas goelas aceitam as fraldas introduzidas na cava dos gorgomilos  secos. Há muito a ser contado, denunciado, mas as guerras pessoais perdem-se nas moitas ralas das manifestações do povo desencontrado: "A história da sociedade até aos nossos dias é a história da luta de classes."( Marx).
                                      O desencanto é a mãe da morte psíquica, órfã de si mesma e ignorante de seu lugar na sociedade . Enquanto todos murmuram, carentes das manobras que representam o comando da mão forte, da justiça na balança e do cumprimento das leis instituídas, "O capitalismo gera o seu próprio coveiro."( Marx)
                                       No funeral de uma nação, não se convidam jovens e anciões, ambos perderem-se a caminho do ritual; tampouco convidam-se os maduros, pois estão abrindo covas para os que se acreditam perdidos; menos ainda convidam-se as crianças, pois estão todas elas, absolutamente todas, à espera de um sinal para aplaudir ou para chorar: as únicas a sofrerem várias e múltiplas vezes a dor da percepção sem direito ao discurso. No funeral de uma nação, a dor do não fazer e não dizer fere a terra em virulentas feridas que não representam as lágrimas escondidas em berço de espera. Não há berço esperando o corpo do povo sufocado, pois "O Governo do Estado moderno não é se não um comitê para gerir os negócios comuns de toda a classe burguesa." (Marx).
                                         Das janelas semiabertas, algumas frases moribundas saúdam o improvável mérito de uma suposição:  "Democracia é oportunizar a todos o mesmo ponto de partida. Quanto ao ponto de chegada, depende de cada um." (Millôr)

"A democracia surgiu quando, devido ao fato de que todos são iguais em certo sentido, acreditou-se que todos fossem absolutamente iguais entre si." (Aristóteles)

"A democracia muitas vezes significa o poder nas mãos de uma maioria incompetente. (...) é apenas a substituição de alguns corruptos por muitos incompetentes." (Shaw)

"Democracia é a forma de governo em que o povo imagina estar no poder." (Drummond)
                         E agora, Mandela? Se " ...a educação é a mais poderosa arma pela qual se pode mudar o mundo." (Nelson Mandela),  o que resta aos gorgomilos secos?

Ivane Laurete Perotti