domingo, 22 de maio de 2016

UMA QUESTÃO DE ESCOLHA

QUANDO A SOLIDARIEDADE TRAZ À TONA O HERÓI DESCONHECIDO

-  ações de bondade não são ensinadas: aprende-se na humana vontade de ser -


"Permita-se rir e conhecer outros corações. Aprenda a viver, aprenda a amar as pessoas com solidariedade, aprenda a fazer coisas boas, aprenda a ajudar os outros, aprenda a viver sua própria vida.”  Mário Quintana

                                      Final de um dia de trabalho para mim. Início de trabalho para o motorista Paulo Afonso e o trocador José da Costa. Bastava a ambos deixarem-me diante do ponto solicitado. Faz parte do acordo entre passageiros e condutores. Cada qual com o seu itinerário e vicissitudes a repetirem-se diariamente. Não! Não contavam as mazelas do cotidiano que, diante do infeliz e triste episódio - já comum entre nós como se estivesse determinado aceitarmos a violência de cada dia -, dois homens pautassem a vida pela competência profissional e seguissem a bússola da solidariedade. Paulo Afonso e José da Costa já haviam cumprido a parte do acordo no trânsito da vida: poderia o motorista Paulo recolocar o ônibus em marcha,  pois há sempre um trajeto a percorrer,  um tempo para dar conta e outros tantos passageiros para atender. Poderia, mas não o fez. Paulo e José, competentes, prestavam atenção ao trabalho que desempenhavam sem deixar de lado a grandeza de espírito e a humana presença da bondade. Competência, bondade e prestimosa vontade, salvaram-me de uma ação que não desejo descrever. Basta, para mim, dizer do que é bom e grande. Cansei de ver as tragédias amontoarem-se diante de olhos opacos, acostumados a não mais se indignarem, a preservarem-se na silenciosa e temerosa apatia. Cansei da força de personagens que fizeram da história humana uma fonte de sangue e dor e ainda permeiam ações cotidianas sem que percebamos as semelhanças da ideologia supostamente indetectável: "Humanitarismo é a expressão da estupidez ..."(Adolf Hitler).
                      Nos vincos da autopreservação  - e nada se diz aqui em contrário a este princípio natural e espontâneo ! - prevalece a ordem da cegueira social. Desde que não aconteça comigo, nada posso fazer. Se tiver de acontecer, acontece e ponto final. Se for roubado, assaltado, sequestrado, você é o culpado pelas "pistas" que deu ao larápio. Seja esperto, não se envolva. Prefiro um covarde vivo, a um herói morto...!  E o discurso cria a máscara da não dor, da não participação, como se usando-a, permanecêssemos protegidos e intocáveis. Triste discurso da destituição humana. Triste, mas não forte o suficiente para influenciar dois homens, Paulo Afonso e José da Costa que não estariam errados se tivessem deixado-me à mercê da própria sorte. Não estariam errados. Apenas e tão somente estariam cumprindo a parte final do contrato e seguindo o rumo da noite. Ambos, sem saírem da rota obrigatória, agiram por conta e risco tomando para si a proteção de uma vida estranha: a minha!
                        Por trás de portas que se abrem e fecham no ônibus que transita diariamente em Belo Horizonte, dois grandes homens, dois heróis de inquestionável conduta, driblam as agonias de quem vive na selva cosmopolita. Não existem mais lugares seguros, falam as vozes dos que se entendem entendidos: do campo à cidade, as trilhas da violência abrem buracos. Sim, é um fato. Mas também é fato que seres humanos estão em ambos os lados; o que nos torna sujeitos da violência ou sujeitos à ela não é uma questão semântica. A violência não é  um conceito perdido entre boatos: é uma realidade a ser enfrentada com decidida vontade política.
                         Ao Paulo Afonso e ao José da Costa, dois heróis de um cotidiano particular, o lugar de respeito, exemplo e gratidão.

                        " A gratidão é a memória do coração." ( Antístenes, filósofo grego).


Ivane Laurete Perotti