segunda-feira, 15 de agosto de 2016

SOBRE A ORIGEM DOS FATOS

EFEITOS DO VENTO
 
- no epicentro da realidade, inverte-se a pressão sobre ombros alheios –
 
                                                            “Não precisas de um homem do tempo 
                                                              para saber
                                                              para que lado 
                                                              sopra o vento.” Bob Dylan
 
                    O final do dia apressa-se. As nuvens empurradas pela noite próxima cochicham acerca dos efeitos que o vento deixa ao passar sobre aquelas vidas. Uma delas demonstra não perceber as mudanças; outra nega o efeito da varredura; mais outra apaga os vestígios deixados após a ventania; ainda outra reclama da força desigual: nenhuma delas sente da mesma forma o que deveria ser fato consumado. O vento viera e fora embora no tempo e no modo que lhe aprouvera. O zéfiro, mandante do próprio destino, fazia das massas um pretexto para locomover-se e, a quem duvidasse, lambia de solapo a nuca eriçada. Assim era e assim parecia continuar, até que o argumento, evento da retórica, tomou o freio da realidade e transformou a tempestade em um fenômeno lexical. Melhor dizendo, em um fenômeno discursivo, quando da metáfora se fez bigorna para amansa/amassar palavras tardias. Já não é acerca do vento que as nuvens cochicham. Nem sobre a chegada da noite as vidas se atêm. De algum lugar parte uma agitação que ao clima não se pode culpar. Lugar abstrato, mesmo que potencialmente eficaz. Lugar de fato, mesmo que à subjetividade humana seja impossível nominar. Sopra algo, e não é o vento, acontecem “coisas”, e não é o tempo. No limite do horizonte cruzam-se linhas, feito novelo embaraçado, todas submissas às variáveis de causa.
               Já não se fala mais do vento, nem das metáforas: sobre todas paira o “desvio”. Desvio de foco, desvio no apuro do olhar. Na representação dos “acidentes”, o tiro no escuro persegue o alvo; a noite não cai... desce; o vento não sopra...rufla; o tempo não passa...adormece; o olho do furacão é vesgo; a justiça usa binóculos; o mar morre na praia. A “substância”, essa estranha no ar dos fatos, muda forma e não informa o que poderia contar. Aristóteles não molha a pena: pena! A retórica arremessa o verbo na direção que lhe convém. Arregaça os dentes, bem à frente: alguém? Quem? Sujeitos e categorias gramaticalizam em causa própria. O vento? “O sol e o vento falam apenas de solidão” (Albert Camus). “... Parece que o vento maneia o tempo...” (Érico Veríssimo).
             E lá vão as nuvens, cochichar do homem - enquanto descobrem os meninos, descobrem o lado do vento: nenhum! E cobram o rumo dos fatos: alguns! Levam a sério o peso que dobra ombros e tombos, folguedo de um! Assim sopra o vento, efeito do tempo: “... vou para a rua e bebo a tempestade...” (Chico Buarque).
            O final do dia deixou passar a pressa. 
Ivane Laurete Perotti