domingo, 21 de agosto de 2016

SEM FINAL FELIZ



A REALIDADE SUPERA A FICÇÃO

- sobras de guerras não são contadas –

“A guerra é sempre uma derrota da humanidade.” Papa João Paulo II


                              Não é um conto de fadas... não é ficção, nem a fantástica inteligência por trás dos efeitos especiais da cinematografia. O olhar perdido das crianças do mundo não se compara a nenhuma produção ficcional. Tristemente, a perda da infância altera a ordem do universo em um silêncio tão criminoso quanto a desesperança sobre a espécie humana.
                              Morre o menino Ali, criança síria que teve o estômago atingido durante um bombardeio aéreo em Aleppo. Morrem milhares de crianças no côncavo indiferente do mundo inteiro: morrem crianças aqui, ali, acolá. Assustadas, ingênuas, desamparadas, esquecidas, crianças que sobram amargas das guerras travadas pela soberana ganância política/religiosa/econômica, pela ganância de causa indefinida.
                            Morrem os espíritos da esperança antes mesmo de alçarem voos de crescimento. Túmulos frios guardam a voz dos que não brincaram de pega-pega: foram pegos em armadilhas da adultice funesta. Pipas esmaecidas perdem-se no céu tomado por bombas, por balas perdidas, por assaltos articulados em frias mãos sem destino: guerras territoriais, guerras sociais, guerras pelo domínio ensandecido de poder e riqueza. A desigualdade ceifa vidas na terra, no mar, no ar da indiferença.
                             A inconsciência mundial acontece no volteio da página do jornal, na manchete esquecida diante do apelo manipulado da próxima notícia estrategicamente colocada pela mídia tendenciosa. Quem chora pelos corpos diminutos cujos sonhos foram tragados pelo furacão do ódio? O descaso mata muito antes da morte por artilharia pesada. E mata a alma dos que assistem sem mobilizar-se. Mata à míngua... mata lentamente  todos aqueles que choram pela dor alheia. “O mundo será julgado pelas crianças. O espírito da infância julgará o mundo...” (Georges Bernanos).
                         Que espécie de homem habitará a Terra? “Sou hoje um caçador de achadouros da infância. Vou meio dementado e enxada às costas cavar no meu quintal vestígios dos meninos que fomos...” (Manoel de Barros).
                          A humanidade hipócrita tem espaço para discutir em qual categoria encaixa-se a formação da família atual: pai-mãe, mãe-mãe, pai-pai, sem pai... sem mãe... sem ninguém!, mas não tem coragem de brigar pela base de uma geração que cresce sem amor. Obviamente falar de amor é por demais piegas, insustentável, irrelevante, não gera dividendos, não promove o capital, nem resolve as diferenças para minorias desempoderadas. Contudo, as minorias estão crescendo e não se percebe que o humilde herdará a Terra, se antes não lhe tirarem a vida por florir em meio à pobreza e o esquecimento.
                        Nenhum muro protegerá o homem do terror da violência. Ela começa no âmago da alma desprovida de compaixão. E enterra as nossas crianças em berços de terra embebida em sangue.

Ivane Laurete Perotti