domingo, 11 de dezembro de 2016

ENVERGADURAS DO VERBO



POR UM FIO

- a vida escorre no vermelho: falências anunciadas  -

É um império
essa luz que se apaga
ou um vaga-lume
?”
 Jorge Luís Borges

                     Acostuma-te, dizem. Resigna-te à ditadura das circunstâncias. Curva-te diante do inalterável.
                    Anda em prévio luto pela volubilidade da vida: instável dádiva. Milita o avesso da esperança e não cries expectativas infundadas: nem sobre a existência, nem sobre a qualidade dela. As escolhas são impraticáveis no plano da realidade crua. Dizem...
                   Aprende desde cedo sobre o teu ínfimo lugar: és a roda que movimenta o consumo das inverdades e sequer saberás o preço devido pelo conformismo. Jamais sentirás que “... Tu és o dono de um espaço cerrado como um sonho.” (Borges) e a vida te deu o direito ao pertencimento.
                   Tu poderias falar, mas acreditas que te calam a voz. Tu poderias criar, mas não vês outra senão a forma acabada. Tu poderias pensar, mas esgotas as possibilidades de sincera vontade. Dormes o sono profundo da dessensibilização.
                    Pronto! Eis a escrava condição do sujeito situado fora do círculo mágico da vida, um dos conceitos para as múltiplas faces da morte. Se “A morte é uma vida vivida...” e a vida é “... uma morte que vem.” (Borges), o poeta ainda vive. Imorredoura é a vontade. E para ela, a vontade, bastaria um pronome: “E mudo até o tratamento: por que vós,/tão gravata-e-colarinho, tão /vossa excelência?/O você comunica muito mais/e se agora o trato de você,/ficamos perto...” (Carlos Drummond de Andrade).
                    Antes que o tu se recolha por completo e a Vossa Excelência retorne para o lugar de onde veio, vaga-lumes a esmo desvestem a casaca do império. O tempo do bom senso pisca ao longe e a Prece do Brasileiro do sempre Drummond reveste-se de atualidade. Uma crônica frente à crise anunciada: Viva o Povo Brasileiro! Aí, com o perdão literário, foi a vez de João Ubaldo voltear com estilo as nossas raízes.
                 Borges, Drummond, Ubaldo... homens de peito! Histórias de vida e morte. Morte em vida. Vida na morte, sem banalização
                 Envergaduras do verbo viver e morrer são figuras de linguagem na corda das palavras. Onde vive o brasileiro, vivia também a sua vontade! E por vivia, vai uma metonímia de sobremesa para o antepasto das massificações: ...tu poderias falar, mas acreditas que te calam a voz!
Ivane Laurete Perotti