domingo, 15 de janeiro de 2017

APELO AOS FATOS




JARDIM DOS VENTOS

- fatos reais –
“(...) No chão espraia a triste sombra; e fora/Daquelas linhas funerais/Que flutuam no chão, /a minha alma que chora/Não sai mais, nunca, nunca mais!
Edgar Allan Poe

                            Jardim Bellgardia, Monte Kujira.  O telefone do vento toca. Seu idealizador, passando dos 70 anos, atravessa os canteiros floridos em estado de grande surpresa. Até onde seu conhecimento permitia, as ligações mentais prescindiam de campainha.  Mas, em se tratando do indizível, as linhas de comunicação não têm fronteiras: improváveis e absolutas.
                                 O desenhista de jardins abre a porta da cabine caiada e tem início um desenrolar que beira à ficção. Beira, deriva, desliza pelas bordas do que não se nega, nem se prova: verdades e mentiras são faces da mesmíssima moeda. Importa o câmbio? Prevalece a cotação!
                                  A ligação provinha de terras distantes, terras banhadas por outras águas, para longe da tranquila paisagem que permite ter diante dos olhos uma face do Oceano Pacífico. Com o aparelho à mão, o plantador de curativos espera a voz inaudível. Um lamento pátrio toma forma de muitas vozes: de onde vêm aqueles que chamam? Às línguas misturam-se lugares, conjugam-se sujeitos, gêneros, idades e condições. Nas fronteiras do verbo, as palavras entoam um só cântico: choram as guerras, temem as tragédias, clamam a justiça da natureza e dos homens. São vozes que atravessam o espaço da aceitação. Sem despedida, dizem olá e adeus!
                        O jardineiro acredita na vida e na morte e tomou para si a responsabilidade de criar o jardim que celebra despedidas.  Pelo telefone do vento transitam histórias, “gentes”, emoções, sentimentos, saudades e lamentos. No silêncio das flores, cúmplices de um contrato em aberto, diariamente os humanos reinventam-se diante da morte. Inabalável, a única a permanecer à espreita, apesar de todas as tentativas de fuga e negociação.  Contudo, as vozes que chegam em coro à cabine ensolarada inauguram outra realidade: nos bastidores da vida, a ceifadora mostra cansaço. “Sim, foi essa a razão (como sabem todos,/Neste reino ao pé do mar) /Que o vento saiu da nuvem de noite/Gelando e matando a que eu soube amar. (Allan Poe).
                               E no amor à vida, reina o poeta inconsolável, marcha o jardineiro fiel, caminham os filhos da Terra. Abandonam-se as flores insepultas. Desbotadas, elas emolduram a triste face da crueza, enquanto a/s/ indiferença/s/ adubam as injustiças e afogam a compaixão.
                           Jardim Bellgardia, Monte Kujira: suspende-se no ar o bocal do telefone. As vozes espraiam-se sobre o oceano como se, em uníssono, pedissem clemência.  Clemência pela antecipação das despedidas, pelas torturas de vários nomes, pelos berços bombardeados, pelos muros de vergonha, pelos crimes sem fronteiras, pelos fanatismos, pelas xenofobias, pelas fomes...
                               Apelativa, propositalmente, esta não é uma “história” de ficção.  É?


Ivane Laurete Perotti