segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

ASAS



RUDIMENTOS DE UMA ANALOGIA
- pássaros ausentes -

Amar os outros é a única salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber amor em troca.” Clarice Lispector

                                      Para quando se deixar de justificar a sóbria condução de nossas resistências, talvez, por debaixo das portas trancafiadas, infiltre-se uma nesga de fantasia. Considerando-se que as metáforas façam parte da vida e as invenções sejam suas respectivas provas, qualquer porta, por mais inconsistente que seja, manifesta uma ideia de lados: dentro e fora douram a face de uma só maçaneta.
                                    Com “a” chave nas mãos, abrir e fechar portas são performances dependentes de perspectivas e motivações: não suprimem lados! Deve ser assim – não? – quando nossos sentimentos criam asas; quando escolhemos uma parceria; quando defendemos uma tese; quando escolhemos uma agremiação e quando, inadvertidamente, ficamos a ver navios.  Longe do adágio popular, ver navios é um chamado aos versos, ao saudosismo, à arte da travessia, à espera de um amor ou à partida dele/deles (desde que não se sucumba à precariedade das condições de trabalho dos estivadores, funcionários portuários et alii, et cetera e...). Mas quem diz que a poesia não desnuda a vida? A vida desnuda a poesia... por fim, a nudez faz parte dos lados de qualquer porta.
                                      Navios e portas têm tanto em comum quanto o amor e os pássaros. Os dois primeiros criam distâncias, sustentam-se a partir de outras estruturas e desafiam aqueles que decidem bater em retirada: ir ou ficar termina sempre – sempre? -  em derrocada democrática. Quem foi di/fama, quem fica re/clama. Ousadias morfológicas.
                                   A segunda dupla, o amor e os pássaros, identificam-se pela valentia nos arremessos; voam alto; apresentam dificuldades em descortinar os predadores; criam asas.  “Asas” são metáforas robustas aplicáveis ao campo das figuras de linguagem e nem mesmo os pássaros podem alcançar os horizontes de suas possibilidades significativas. Mas, começa por aí o limiar de alguns lados: o fenômeno do amor postula dominar a própria realidade e desconsidera que, asas, portas e navios ameaçam-lhe a natureza volitiva. Os pássaros, por herança genética, não gostam de portas – até onde se sabe! Navios não atracam em qualquer cais, mas obedecem à força das correntes marítimas e podem, infelizmente, naufragar em terra seca. Sic! As portas, subtraídas de um lugar único, tendem para o lado com maior pressão, ou se voltam para onde o vento sopra, ou sucumbem, carcomidas, pela inércia de qualquer chamado.
                                   Para quando e se deixarmos de justificar a sobriedade de nossas convicções, talvez, quem sabe, possamos lembrar da nesga de luz que se infiltrou por debaixo da porta.  A nesga não tinha lado. A porta estava nua. Os pássaros nasceram livres. Os navios flutuam em águas profundas. E , de qualquer modo, a poetisa estava certa: “... viver ultrapassa qualquer entendimento.” ( Clarice Lispector).
                               

Ivane Laurete Perotti