terça-feira, 3 de janeiro de 2017

BARBAS DE MOLHO



TEMPO PARA ACONTECER

- sinopse de um conto decadente –
“Se consciência significa memória e antecipação, é porque consciência é sinônimo de escolha.” Henry Bérgson

Alguns verbos cansam a frase. Outros cansam “as gentes”. E as palavras, pobres delas, reviram-se para estancar o sentido ausente.

Era uma vez uma tribo. Canibais por excelência, não gostavam de carnes: apreciavam poderes. O tempo deixara as barbas de molho e não gerara filhos – a sabedoria fora um embrião descartado no tubo criogênico das inseminações artificiais e a maledicência sobre a sua injustificável paternidade tornou-se conto da carochinha: indicado para embalar a dor das incertezas públicas. Eis que elas haviam também lá, tão hirsutas quanto a face do tempo.

Incertezas abrem o apetite do controle. E o controle tem barriga de aluguel: tênias/taeni sollium/taenia saginata, lombrigas, solitárias... todas bem acomodadas no delgado espaço das conspirações intestinais. Mas, enfim, a tribo canibal não gostava de carnes. Alimentavam-se de poder alheio na arena da inconsciência (outra palavrinha gasta, esfarrapada, esvaziada, pobre coitada!).

Nas páginas de sua trajetória, oS sangueS eram tão comuns que ninguém, ninguém perguntava acerca de sua procedência. O tempo, desprovido de herdeiros, parecia colocar panos quentes na sombria evolução daquela gente. Era uma tribo singular: presumia historicamente a sua origem, capitalizava o seu presente e anunciava salvar o seu futuro. Robustos projetos de fundo sem fundo maquinavam-se à baila de grandes discursos (não, não eram tão grandes assim esses discursos, mas a tribo acostumada à retórica do poder alheio sujeitava-se à mesma e repetida trilha sonora). Tudo na mesma linha sociocultural. Uma perspectiva otimista. Selvagemente otimista. 

Do empirismo fajuto à prosa benevolente, a tribo alimentava lombrigas. As barrigas hospedeiras cresciam a olhos vistos. Bárbaros projetos justificavam, vantajosamente, a sua barbárie.  
O povo da tribo esperava dias melhores, uma vez que a chuva e o sol e as promessas e os.... esperava. Esperava. Até que o tempo, num átimo de repúdio ao tédio, aparou as barbas. E o molho de sua longa preguiça entornou desavisadamente.  A tribo, administradamente pasmacenta, viu o molho secular chegar à própria garganta. 

E agora?

O molho permanece no mesmo lugar, aguardando o tempo de decantação – outra faceta da ideia de duração que, convenientemente, a tribo não discute. O tempo? Ah! Este obedece às leis da física, da matemática, da justiça, da retórica, da ficção...
 
Dar conta do processo que afoga, ou quase afoga, a tribo deste conto decadente é uma escolha em estado de gerenciamento. 

Afinal, de ficção e realidade todos entendemos... um pouco! – com perdão pelo trocadilho bastardo! Mais um para reclamar paternidade no mundo do empirismo racional.

Ivane Laurete Perotti