domingo, 25 de maio de 2014

LER OU LER

LIVROS OU PELÍCULAS: JORGE AMADO SOB ENCOMENDA
                  _ entre ler e ler: o livro ou a televisão? –
          
                     Os contornos do mundo indizível povoam o imaginário humano e revestem-se de sentimentos. As emoções penetram para além das palavras aceitas e instauram formas, cores, intensidade e contexto nos recônditos da alma pulsante. "Bilros" tramam "rendas" entremeando palavras cruas e expõem o bojo dos pontos amarrados em si mesmos. A palavra transporta-se em linha pelo fuso da criação.
                      Nos movimentos das letras tecidas desenha-se o não dito, o desejado dizer, o não expresso, o impregnado de sentidos encarcerados sob as pedras da censura e da intolerância. Desejar é próprio da natureza humana, criar imagens do desejo inconfesso é obra dos rendeiros das palavras. Daí alçar Jorge Amado para o terreno dos "sentidos", das imagens, das análises freudianas, das novelas escritas, encenadas e coloridas pelas nuanças do cotidiano dramático e comum ao homem, confere apenas "uma" leitura entre tantas outras leituras possíveis sobre a obra do romancista baiano.
                     As discussões sobre os gêneros textuais ainda transcorrem em terrenos férteis: limites e fronteiras acerca da estrutura e da formação discursiva incluem performances que transitam entre o signo e a forma, entre o ficcional e o real. Para além das considerações e tipologias textuais há de se aventar acerca do "gosto", da "fruição", do "prazer" que personificam o universo particular e impreciso da experiência do "leitor", do "espectador", com um conhecimento enciclopédico capaz de movê-lo, ou não, pelas dimensões da obra manifesta signicamente.
                     Dos livros para as telas: é possível "pensar" o sucesso da literatura de Jorge Amado também na televisão? Mesmo que se negue a imprecisão do prazer implícito que emerge das "impressões de verdade" e verossimilhanças que o escritor constrói enquanto narra, valendo-se de recursos de intertextualidade, do registro de variações linguísticas, da construção de uma identidade baiana não restrita nem fixa, quem "lê" Jorge Amado acompanha o desnudamento de histórias muito próximas. Tanto no tempo histórico quanto nas dimensões psicológicas e sociais, o ato de narrar do Grande Rendeiro personifica um universo subjetivo de transferências. Não é a identidade baiana que vai crescendo com um instrumento de análise, ao contrário, cresce na obra amadiana uma identidade nacional, peculiar, reconhecível, palpável, possível. A potência da literatura de Jorge Amado está na atemporalidade transponível marcada pelas disjunções temporais: o tempo, mesmo que indicado, não remete ao recorte histórico de fatos rememoráveis, mas sim, indicializa as possibilidades do devir, do possível, do verossímil, do posto e adequado modo de refratar o comum e o conhecido.
                    Jorge Amado é um exímio contador de histórias. Não só! Contar de modo a abafar a voz de quem conta exponenciando a história é arte em sua própria essência. Então, independente do gênero em que se transpõe o universo criado por Jorge amado, a história em si mesma transborda para fora da moldura estrutural em que se apresenta. Televisão? Um útero plasmático fecundo e promissor para a arte de fazer arte. Livro? Um lugar de “fazimento” onde a arte assume o núcleo da vida criativa.

                    O olhar enviesado para a "roteirização" da literatura escrita, muito comum entre críticos da contemporaneidade, mostra-se inócuo diante do sucesso de Jorge Amado. A televisão empobrece? Quando a história é suficientemente rica para manter-se produtiva no universo criador que implica: não! Pode ser?