domingo, 4 de maio de 2014

LOAS

CAÇANDO O AMOR A UNHA... (primeiras considerações)

“Deus, para a felicidade do homem, inventou a fé e o amor. O Diabo, invejoso, fez o homem confundir fé com religião e amor com casamento.” (Machado de Assis)

_ Casamento dói?
_ Que pergunta sem noção, filha!
_ Dói, ou não dói!
_ Filha! Sem graça falar assim de algo tão sério!
_ Então, dói!
_ Você não sabe do que está falando!
_ Mas, você sabe!
_ ...

                                    Quando a prosa atravessa as incorpóreas alamedas da poesia, os versos encolhem-se diante da aguda força do acontecimento linguístico. Afinal, fatos são fatos e a poesia, bem... a poesia pouco ultrapassa a compreensão estética de alguns abençoados sensíveis - talvez mais sensíveis do que a própria pena que carregam por sê-lo - e se mostra sem mostrar-se, possivelmente contrafeita de sua natureza frágil e intangível. Obviamente, estas são justificativas grosseiras que intentam estabelecer uma fronteira factível entre o sentido e o expressado. Tolices de uma tarde de domingo. Exercícios sem fundos na guarida do livre pensar. Livre? Nem livre e nem puro: grande, denso e profundo é o caldo onde se misturam as ideias que acreditamos alimentar acerca das manifestações vividas e absorvidas. Nem um nem outro: jogo de palavras amalgamado com a ironia da provocação diante de quadros esquadrinhados pela realidade retórica.  Pinturas sem fundo quando o assunto não se delimita em área sustentável. Casamento e religião não se discutem. São atos politicamente marcados pelo sistema que os consome, ou sustenta, ou institui, ou... funda e afunda!
                                     Atire a primeira frase aquele que já se tenha deleitado frente à sonoridade ofuscante de uma poesia sobre o casamento. De-lei-ta-do! Nada a ver com dei-ta-do! O particípio é uma cruzada de pernas que protege quem diz, uma vez que todas as possibilidades são aceitas, desde que provadas em contrário na elegância das escarpas estatísticas.  E por tratar-se de escarpas, fazem-se presentes em todos os átrios do comportamento humano. Seria a poesia um elemento tão diáfano quanto o fugaz sentimento que a ultrapassa na métrica dos versos calculados? Ou somos nós, humanos, facultados de ínfima capacidade para dedicar loas ao lado concreto e repetitivo da vida comum? Seria o comum da vida material não substituível pelos lânguidos movimentos das estrofes enviesadas?  O que seria de nossa alma efêmera sem a mão da subjetividade metafórica, dos desvios figurados, das sílabas cantantes, das interpretações ricas? O que seria do casamento sem as suas regras para serem deliciosamente subvertidas a favor do ostracismo de um e de outro? O que seria da religião enquanto instituição se os fiéis seguidores descobrissem a inusitada instância da fé?
                                  Nego-me a concluir este texto... por enquanto!


O amor é grande e cabe nesta janela sobre o mar. O mar é grande e cabe na cama e no colchão de amar. O amor é grande e cabe no breve espaço de beijar.” (Carlos Drummond de Andrade)