segunda-feira, 19 de maio de 2014

DUBIEDADE

PASSAGEIROS EM  MÃO DUPLA
           - entre o céu e a terra: a terra e o céu -
                                         “(...) Ele, porém, se retirava para lugares desertos, onde se
                                             entregava à oração.” Lc 5, 12-16

                                           Eis que se refugia em cada um de nós o silêncio dos desertos. Eis que em cada um de nós instala-se a menina dos olhos das tempestades. Dentro e fora do universo humano, traçamos a caminhada que nenhuma estrela tem o poder de repetir: tornamo-nos! Em vórtices de ação ou na contramão dos enredos, tecemos os tênues fios que nos entrelaçam na teia macro da vida. Criamos constelações!
                                            Na areia de nossas vontades, alguns sonhos projetam castelos enquanto a imprópria necessidade sabota sem piedade a base da construção. Sem alicerces, nem as fossas mais profundas impedem as invasões sorrateiras advindas de fora, ou que emergem de dentro, como se o fora estivesse mais longe do que o longe do lado de dentro. Visíveis ou invisíveis, visivelmente invisíveis, lá vamos, humanos passageiros, sem um único bilhete na mão, tentados a voltar atrás a cada deslize ou solavanco na direção. Voltar, voltar, voltar... lembra uma toada solitária que se perde ao pé do tempo, mas não sem antes causar vertigens, choros, lamentações.
                                           De iniquidade em iniquidade, descobrimo-nos frágeis, poderosos, frustrados, vencedores, otimistas, pesarosos, rejeitados, amados, reprovados, ao mesmo tempo e à margem dele: naqueles parênteses que abrigam as almas como se o tudo e o nada se encontrassem ali, na primeira esquina, para fiar a conversa do dia em finas tiras de oração. Epifania. Síntese. Nirvana. Água com sabão! A dúvida gera trema: trema! Um obelisco no movimento das ondas que não vemos, mas nos envolvem independentemente do nosso desejo de mergulhar fora ou dentro do mar da vida. Mergulhar é preciso. Voltar... não!
                                           Eis que a todos se deu o sucesso! Vantagem da raça humana. Prestidigitadores do destino, alçamo-nos à coroa da fama, jogamo-nos pelos trilhos das vantagens, despedaçamo-nos no espelho das vaidades e para não ferir a fonética das últimas sílabas, sentamos sozinhos à calçada que atravessa a rua. Na calçada exige talento: à calçada deixa um pouco a desejar, mas não localiza o perigo mais perigoso: valeu? Na pedagogia do vencer ou vencer vale a motivação do dia. Festa e agonia! Alma vazia. Nem Veríssimo, o pai, daria conta de olhar os lírios do campo em sua ociosa capacidade de brilhar sem tecer. Nós tecemos fios e lampejos de esperança, também descrença, um pouco de amargura, outras vezes fartura, na grande festa do crescimento consciente. Eis o ponto: entre o céu e a terra não se instala vã filosofia.  Vã é a tarefa de buscar uma filo-sofia: amor à sabedoria é o alicerce do primeiro castelo fustigado no sonho silencioso do deserto em harmonia. Não se cava o fosso das lamentações, nem o muro das proteções: habita-se um lugar qualquer, no vazio do tempo, para deixar a vida seguir seu curso no formato de oração. Valei-me toda a caridade derramada sobre os passos da fé. Fé? Valei-me toda ela, pois o deserto se afasta daqueles que se aglomeram no centro do próprio círculo.
                            A mão é dupla: não dúbia! Na dúvida, cerque o canteiro da paz com meditações diárias e jejum de ostentação. No final da parábola não contada, a montanha seguiu o Mestre e submergiu com Ele entre nuvens de pão. O caminho fez-se claro, abundante e carregado de emoção: genuíno sentimento que antecede as teias férteis na trilha da evolução.

                          Passageiros em mão dupla: carimbem o bilhete da oração. No silêncio do deserto, no deserto do silêncio, limita-se a plateia, se ganha introspecção.