quinta-feira, 24 de julho de 2014

ORFANDADE LITERÁRIA

 PALAVRAS TRÊS VEZES ÓRFÃS

         -  futuras histórias sem pai -

"Não tenho medo da morte. Na minha terra, a morte é uma mulher ( ... ). E o único jeito de aceitar essa maldita é pensando que ela é uma mulher linda." (Ariano Suassuna)

" A saudade é a nossa alma dizendo para onde ela
  quer  voltar." (Rubem Alves)

"Nós aprendemos a ser apáticos, dominados e a ter pouco senso de comunidade, ou seja, pouco senso de interesse coletivo. Nós temos uma formação que eu não sei de que buraco saiu..."  (João Ubaldo)


                                    Nas sombras das nuvens ralas um cílio bate continência. Pálpebras vertem letras molhadas sobre páginas em branco espalhadas a esmo pelo terreno celestial. Frases não escritas espremem-se no espaço da criação.Livres, continham-se diante do vazio triangular. Ali e lá a linha da existência curvava um anel temporal de pungente sentido. Mesa redonda no paraíso: olimpianos enciumados espreitam o poder do verbo individualizado. Três grandes construtores das palavras entabulam um colóquio provisório: a arena do céu arma-se em contentamento. A chegada festiva promete a suspensão de toda carestia semântica: criar é verbo processual,de valência interminável, inextinguível.
                                Não fosse a orfandade terrena que subia pelas barbas dos anjos, o paraíso contentar-se-ia em apenas comemorar o grande feito: Suassuna, João Ubaldo, Rubem Alves trocavam figuras pictóricas com prazer redobrado. A Arcádia Sideral reposicionava suas cadeiras para receber os grandes meninos que revigoraram a vida comum nas linhas simples de sintaxes coloridas, entortadas, simplificadas, espichadas até a ponta do verossímil. Ficção? Ora, ora, ora! Contar é a arte de mentir com bravura e destreza sob bases tão verdadeiras quanto impraticáveis. Prodigiosos pintores, fizeram da poesia um manto de possibilidades irrepetíveis em saudosas telas de palavras nuas. Destros da imaginação, usaram a alma para tingir folhas e vidas, ambas catalogadas nos anexos da história maior.
                             Flocos de saudade arremetiam-se da terra ao céu feito flechas almofadadas pelo carinho e pelas lembranças latentes. Um soluço! Outros mais! Que alegoria armaram eles para deixarem-nos tão opacos e perdidos de uma só vez? Pedaços de histórias aqui e ali tremiam em ordem de marcha: um e dois, o que será depois? Um amava escrever, o outro escrevia por amar: diziam não saber e então, faziam acontecer com a graça de quem vê o sol desvestir-se todas as manhãs, mas guarda o segredo da nudez calorosa olhando para o outro lado da bacia mágica. Ah! Faroleiros de terra seca, ilhas desertas, sertões castigados, pedreiros da alma absorta; galhofeiros abençoados pela tarimba da sabedoria vivida a punho e letra. Escrevinhadores das ideias folgadas e saborosas,  saltavam de um paraíso a outro. Este último, o prêmio da agremiação etérea, dos passos sidérios, era um novo capítulo no livro da vida. Ubaldo, Ariano, Alves, nos deixaram sem partir. Um upa! ou opa!, um urra! talvez, olé!... qualquer palavra que possa exprimir nosso sempre e sempre e sempre amor pelos arquitetos dos sentidos ativos, vagos e atribuídos.