domingo, 14 de setembro de 2014

UM TRIBUTO

AS ESTRELAS SÃO MINHAS

- um tributo ao olhar iluminado -

  "A noite acendeu as estrelas porque tinha medo da própria   escuridão."
Mário Quintana

                                          Sob camadas de pó, a memória perde o brilho, o viço e a validade. Espanando-se os fatos da vida, algumas janelas abrem caminho para os sentimentos instintivos e primordiais que, latentes, morrem à míngua na ilusão do esquecimento. Quando não são antecipadamente massacrados pela ansiedade das resoluções mágicas, ou da desesperança não caridosa, autoflagelo imposto e aceito sem declinações.
                                          Não se aprende sem esquecer que esquecer é um jeito de aprender a lembrar. Selecionar lembranças pode disciplinar o olhar sobre as escuridões temporárias e os excessos de luminosidade tangenciados pelos milagrosos reveses da vida. Um passo aqui, outro lá. Apagam-se os passos e permanecem as marcas no terreno da alma consciente quando a alma está presente. E de presente em presente, até a alma se faz ausente! Purga as decisões e sofre no ocaso dos sentidos que atravessam o horizonte desalinhado.
                                         Há sempre  uma  medida balizando a nossa forma de ver e sentir: pesa a pena sobre a pele desnuda, queima a luz que se distancia da vela acesa. Tocam-se as estrelas cadentes em pedidos rasgados diante da lua cativa, ambígua e afônica. Salve Jorge! que sejam consumidos os dragões da ofensa e do malquerer. Sob espadas de magnólias, revista-se a armadura do chão celeste, emblema campestre para os atentos peões.
                                   Estrelas fecundam a espiralada via láctea. Os dias escondem o rosto, a noite desdobra a manta  e o firmamento parece estar  sempre onde tudo começou, mesmo ao término dos calendários com suas colheitas orquestradas. É assim: sentir, medir e guardar processam-se no mesmo ritmo sazonal das emoções perfiladas em míticos acontecimentos. De cá, de lá, somos andarilhos sob  estrelas pontiagudas,  fúlgidos astros de destino providenciado pelas leis da vida, sempre ela, a manter-se ativa até quando a entendemos perdida.
                                  Vacância entre os homens de bem. As estrelas são minhas, suas e de todos aqueles que suspendem o ritmo para atear-lhes o fogo da poesia. Nutridas pela esperança, não tardam em esmorecer, apagar, para voltar acender em outros sistemas, longe dos olhos descrentes, céticos e apressados.
                                         A noite não cai... ela desce as estrelas para presentear a escuridão.
                                 As estrelas não morrem, mudam de lugar! E nascem da gestação orbital de nossos anseios: uma forma de estar no mundo!

"Eu vos digo:
 Alguém precisa ter caos em si mesmo
 Para dar luz a uma estrela dançante."
               Nietzsche
Texto: Ivane Laurete Perotti