segunda-feira, 30 de março de 2015

DE DENTRO PARA FORA

INVENTÁRIOS

- no espelho dos anos habitam memórias e invenções: todas elas distorcidas -



 " Na caricatura de um fato e do que se diz dele transitam impunes a língua, a linguagem e a louca soberania que rege a literatura." Ivane Perotti

                                    Acima dos montes pairam nuvens de imprecisão: ao fôlego dos ventos lambem a terra ou beijam as margens do céu. Abaixo deles, peregrinam seres humanos: açoitados pela nebulosa condição de subjetiva incompletude, embrulham dentro de si memórias e visões como se dentes mastigassem-lhes a verdade jamais deglutida de quem são... quem são...
                                     Quem é o homem que transita abaixo das nuvens e sobre elas edifica a sua morada? É o mesmo homem que escala os montes para ver a que distância do solo planta os próprios pés.
                                     Fatos e boatos pesam na bagagem da vida com equivalência doentia, salvo a ordem em que afetam a discutível impressão nas tábuas do autoconhecimento: quanto mais se insiste na imagem criada, mais se aceita  que o reflexo no espelho é a expressão daquilo que é! Não é! Entre ser e não ser salvam-se apenas as orações: desejos talvez genuínos de se desentortar os espelhos da vida. Talvez genuínos... talvez...
                                    " Ora pro nobis! Orate pro nobis! Ora pro nobis omnibus..." Ora pelas almas abertas que desejam tocar o azul dos mares, que não temem verter em  cores o pano das emoções, que aguardam beber a esperança em cálices de barro frio. Ora pelas mentes famintas, pelos corações flagelados, pelas mãos desnudas em falso labor. Ora pelo sentido inexistente, sempre latente, na boca das gentes, preces dementes, obscuro louvor. Ora pela verdade incongruente, fator recorrente na memória doente, divisão entre servo e senhor, crédito e credor. Deve quem recebe o amor e dele faz moeda de troca na invenção do favor.
                                    Que no inventário de uma vida se derrame em mantos,  dos olhos o pranto,  da vontade a dor, investidas contidas, interrompidas,  em frases e gritos, mitos, desditos, palavras quentes de impiedoso teor. Que se faça do verbo uma ação inclinada, à bondade voltada,  longe da escada, da ofensa elevada em degraus concentrada, violência  ampliada em surtos, furor.
                                  Que não se escreva em tábulas rasas, quão simples se foi; já que a simplicidade é um movimento complexo, fiel caminhada,  trabalhosa tarefa de extirpar a mediocridade, outra maldade, prega da falsidade , voto de desamor.
                                     Que não se abandone a batalha travada no meio da estrada por medo, pavor. Coragem é um dito, negado o visto, à mentira, ao fraco pudor. Nem se espere lugar de recompensa, igual ao que pensa, quem não merece no mérito o crédito de aplausos, o ramo de flor.  Dizer-se não ambicioso não salva da fraude, ataúde grotesco, principesco, onde as palavras enganam e os atos profanam , curto teatro, honras sem atos, homens e ratos, escondem -se em igual e carcomido andor.
                                  
                                     "  Prima é a obra da  natureza!" Ivane Perotti

                                    
Ivane Laurete Perotti