segunda-feira, 18 de maio de 2015

GONGOS TAPURUS

MAPEAMENTO CULTURAL

- da divisão social do trabalho e das relações de poder -

                                               "Imprecisos são os lugares ocupados
                                                pelos indivíduos na sociedade contemporânea:  
                                                esvaziados, negam o amadurecimento ,
                                               cultuam a ilusão da eterna juventude ,
                                               erotizam as crianças, criminalizam
                                               o livre pensar e proclamam
                                               a estética do consumo," Ivane Perotti

                                      Alegrai-vos se percebeis que o ranço adentrou este texto. Alegrai-vos, pois sinal há de que, destarte a vilania da condução externa, ainda pensas.
                                      Escusas! A empáfia foi uma desculpa inicial e quero voltar correndo para o meu lugar de pronome e contentamento: você pensa? Eu pensava pensar, até o momento no qual caí sem dobrar as pernas e dei com as fuças sobre a sombra de minha sombra. Arredio volteio fiz de dentro para fora e vi que o fora não estava tão demarcado quanto acreditava, ou desejava acreditar, ou necessitava fazê-lo. Carrego a bagagem da culpa ética por aceitar que vejo e discordo, que avanço e não progrido, que destoo e não enlaço, que digo e não ecoo. Frívola culpa de quem amarrou-se à crença de estar  na contramão das bússolas sociais. Outra ilusão, mais árida e menos estética, pois a retórica também serve ao punho que acende o pavio do canhão. Não se fazem mais canhões, claro - ou não!, desconheço arsenal belicoso que não passe pelo fogo das palavras , então, a dúvida sobre o argumento é por mim confessa - como se fazia antigamente. Mas as guerras pouco mudaram desde a instalação do poder sobre o poder e antes dos canhões, dos mísseis, das ogivas, co-existem discursos, os mesmos desde sempre, alimentando a mão anônima que avança em desconhecimento de causa e propriedade. Co-existem! Nem o verbete resiste à junção do prefixo latino após acordo ortográfico ainda não sancionado: permanece em guerra a escrita correta às mãos dos letrados em letramento inacabado. Ai! Dona Dilma e Dante Lula, a quem desejeis agradar? A lusofonia é outra desculpa para dizer-se bem o que se quer dizer mal - mau? Não! Mau é o hábito cabeludo de não fazermos parte do mapa que nos afoga em clássicas anetes, partes anedóticas das âncoras filosóficas atracadas em portos derreados.  Vergando sobre o peso das arruaças externas, consome-se o plantado, o aceito, o divulgado, o dito, o pensado - quando pensado: não há lugar para sujeitos ímpares em nossas páginas atuais. Tangidos pelas pressões e pelos valores a peso pesados sem pena, recauchutamos as bochechas, desamassamos as rugas, implantamos cabelos, aspiramos as ansiedades calóricas, arrebitamos os glúteos, aumentamos as panturrilhas, etc.,etc.,etc., e deixamos às crianças a responsabilidade de descobrirem um dia, um dia, talvez, o mundo que lhes passamos às mãos. Passamos? Se o crime não compensa, a deseducação, o trabalho precoce e a erotização infantil geram dividendos aqui e agora, e compensar-se-ão no decorrer da história. Lugares de sujeitamento social são a prova de nossa improbidade humana quando o humano fica fora de lugar. Trocadilho barato, mas a filosofia ainda não cobra  credenciamento - cobra? -, então, arrisco. Feito a bucha do canhão - à moda das antiguidades - o botão do "play" que nem mais é um botão - há de se focar na  ciberevoluçãotecnológica, linguística, midiática -, andamos todos a passos de gongo tapuru: muitas pernas, pouca direção e não sentimos quando o fogo arde sob a força de alheios interesses.  
                                       O que mais azeda o já azedo ranço de minha repetitiva retórica é o inaudito fato de acreditarmos na liberdade democrática enquanto poder capital. Se aos peixes fossem debruadas asas ao invés de guelras, quem pode afirmar que permaneceriam eles sob as águas de março? O calendário é uma convenção, os limites da fonte, também são.
                                        As relações de poder que norteiam o mapa de nossa cultura desenham-se em afrescos descoloridos, quem for capaz de ver as linhas pré-delimitadas que atire a primeira argamassa e, abaixe a cabeça, pois certamente, a cabeça e argamassa estarão a prêmio: sem recompensas!

                                                  " Em um lugar qualquer
                                                   um homem respirou aliviado:
                                                   lembrava-se ele
                                                   de sua condição natural,
                                                  naturalmente!" Ivane Perotti

Ivane Laurete Perotti