domingo, 21 de junho de 2015

É PRECISO CARÁTER E CORAGEM PARA SE IMPORTAR

- não se pode fabricar novas lembranças, mas pode-se construir novas decisões -

 "O desamparo não é uma ocorrência natural; natural é o senso de pertencimento que a raça humana teima em negar e se esforça vigorosamente para remover da memória genética." Ivane Perotti



                                          Com o vento da noite sem grades, veio o brilho da febre. Nas mãos nuas, os restos de mais um dia faziam troça das marcas acumuladas em camadas de fétida sujidade. O que restava do homem não estava à mostra, se é que mostrar fosse uma possibilidade no quadro do desamparo instituído. A nudez da alma não aplica ao corpo revestido o frio da indiferença; esta, a indiferença,  é uma decisão da razão despida de caráter e coragem: um aborto emocional provocado a ferro no útero movediço da sociedade moderna - passaporte para a construção dos conceitos de segregação.
                                    Não se depreendia dos olhos febris a idade daquele corpo, mas era um homem que a vida gastara por dentro e por fora. Apenas mais um entre tantos na larga avenida atravancada. Era a Queda da Casa de Usher  ( Edgar Allan Poe, 1839) que estava ali, bem à frente, aos lados, acima e abaixo de quem decidisse ver e tivesse coragem para assumir a frustração depressiva que exalava poderosamente os seus odores nauseabundos: o cheiro do abandono é podre, mórbido, pegajoso e toma de assalto as cavidades da consciência prática. Febre ou crise de abstinência? Fome ou falta de ambição? Pobreza ou sorte de quem nada tem e não precisa de nada? A poesia seria violentada a construir garras, apropriar-se de verdades, profanar os sonhos, bajular os anjos, barganhar a arte  para tornar leve e livre o sentido de uma emoção sem sentido: a dor do outro! Cadê o outro? Estava ali, onde estavam todos, no mesmo porto sem cais, sem margem de acesso, sem farol de anúncio às tempestades recorrentes que varrem todos os dias, ininterruptamente, a correnteza da vida. O outro estava ali, sujo, molhado pela incontinência da urina escura e pelas lágrimas  invisíveis de alguma lembrança reticente. Estava e não estava. O "outro"  se tornou paisagem e não oferece à vista condicionada do homem oficialmente vivo e bem casado com os compromissos de suas crenças, valores e pressões  as fartas  e lautas ofertas de deslumbramento e  introspecção. Sim, pois hoje, mais do que nunca, vende-se e vende-se bem a natural ideia de buscar junto às paisagens a natureza da reconexão, introspecção - o religare do antigo latim, morto e enterrado em terras ágrafas - com o mundo: viagens ao redor do mundo escondem os mundos que nos rodeiam, fundamentam, e constituem. Fazer o quê? É o preço do amortecimento diário, das anestesias, da apologia ao foco, às metas e aos objetivos traçados, fixados e tombados em visões futuras: serei feliz amanhã, terei o melhor carro amanhã, amanhã eu amo, transo, confesso e me presenteio, amanhã eu existo.... Pode haver maior pobreza? Pode! Elas se reinventam cotidianamente com o aval  sapiente do homem lambuzado em poder e corrupção. O termo "lambuzado", por suas conexões com os fetiches de outras fomes não cabe aqui, até por respeito aos olhos febris do homem à calçada. Troco o termo - e não a ideia - por outros termos, mais robustos e verossímeis à lembrança da noite sem grades. Lá vai a troca: no lugar de "lambuzados", leia-se literalmente - se possível for -  ... afogado, atarrachado, emporcalhado, embargado, refestelado, aturdido e... confesso publicamente o desejo ardente de fazer um trocadilho que o texto não permite, mas tem a ver com a palavra mais proferida na atualidade. Uma pista morfofonêmica ( para amenizar o meu desejo e inferir sobre a ação da leitura): tem três sílabas, começa com /f/ e termina com /o/, é paroxítona não acentuada, muito usada por norte-americanos em filmes de pouca metragem - qualidade duvidosa -  pavorosamente repetida nas redes sociais, e, vai lá: sintaticamente infere uma ordem impraticável, ou não?,  em detrimento da pronominalização escolhida a dedo - ou por outras razões da inconsciência linguística que nos abençoa, amém! Geralmente aparece no modo verbal imperativo que, gramaticalmente faz dançar o pronome reflexivo /se/, ingerindo as possibilidades democráticas inegavelmente abertas na estrutura que as línguas naturais propõem.
                            Ideias de pertencimento? Em que latim se perdeu?
                            O homem à calçada morreu. Deixou o corpo para trás e carregou a alma para algum lugar desconhecido. Morreu sem avisar, não soube esperar pelo tempo certo de sair do modo paisagem e inserir-se na sociedade que o segregou. Não soube!
                        Mas, até as paisagens merecem um olhar presente; pois, se abandonadas, fenecem diante de lembranças que jamais poderão ser colocadas nos lugares de merecimento.
                            Se em algum lugar deste planeta ou fora dele alguém ou alguma coisa conhece a cura ou a educação para a indiferença e falta de caráter: S.O.S.! A covardia tem nos impedido de voltar à essência da humana condição humana  e precisamos de apoio intensivo.
                            Câmbio interrompido para o homem que deixou o corpo na calçada. Usher não era apenas um homem, era, talvez, uma leitura do outro dentro do outro pelo poeta corajoso. Talvez!

 " Dá ao homem aquilo que é do homem e entrega a ele como você gostaria de receber. Utopia? Não, poética da sabedoria." Ivane Perotti

Ivane Laurete Perotti