domingo, 4 de outubro de 2015

NA CURVA DE UM ICEBERG

FILHOS: REFLEXO REVERSO DE UM ICEBERG

-  refluxo das lágrimas no paraíso das relações familiares -

  " Curvam-se ao domínio dos limites a presença qualificada e o amor que demanda tempo e espaço, gasta o verbo, demarca papéis e  repete-se por  lições que não têm hora nem data para a entrega de resultados: viver 'a' família é um processo estruturado em ininterruptos aprendizados conjuntos." Ivane Perotti

                                 Corria por entre os músculos retesados ao extremo a água doce desprendida da geleira polar. Mecanismos de defesa desciam em camadas vociferadas de um lado e de outro da montanha de gelo instalada bem no meio do quarto do filho adolescente.  Correntes submersas e ventanias às cegas moviam o bloco de gelo em sensível velocidade contra a parede dos papéis alterados.  O fuso neuromuscular instava reflexos miotáticos no  cérebro do que se encontrava pai, informando o alongamento dos músculos dos braços: retesados e no limite da distensão, elevavam-se em cadência sonora cortando o gélido ar do ambiente. O mesmo fuso acelerava os reflexos inversos do que se encontrava filho: mecanismos de defesa ativavam  os órgãos tendinosos de Golgi , situados em séries entre os tendões e as fibras musculares. Demorada tração, tensão ao limite, a produção da força prejudicada não favorecia a flexibilidade. Pai e filho mergulhavam no espelho das cobranças e das culpas admoestadas pela precária qualidade do diálogo inexistente. O gelo movia-se desnudando apenas 10% de seu volume presumido. A água doce solidificada não atingia o Polo Norte, onde as banquisas solidificam-se nos invernos amargos da vida familiar. Plataformas de gelo são  constantes adicionais nas relações humanas, mas naquele momento, o iceberg avançava pelo ártico do planeta espelhado no progenitor alterado. Razões? /Des/razões comuns ao universo que não se estrutura sem esforço, sem amor, sem investimento na saúde dos sujeitos continuamente constituídos.
                           Queria a primavera invadir a cena fria. Estações têm redes invisíveis de comunicação e ciclos, como se versos poéticos pudessem habilitar  ações do desabrochar longe do atrito imprescindível: explode a semente que perfura a terra para alcançar a luz do sol; deflora-se o botão em pétalas abertas; invade a página em branco a prosa sem ritmo. Ciclos da natureza humana estão sob o efeito do El Niño social: fenômeno antropológico, filosófico, psíquico, econômico de causas diversas, difusas e imprevisíveis - ou não! A depender do ângulo por onde os especialistas estabelecem o recorta da pesquisa em andamento. Um olhar objetual é um recorte marcado pelo olhar daquele que o recorta. Nem a ciência foge ao espelho carregado nas pipetas volumétricas, nos espasmos das /re/descobertas encobertas. O academicismo tem ritmo diligente e pessoalizado - perquirere! As famílias também, independentemente dos relatórios que as qualificam na /des/ordem social. Perquirere...
                   Perseverança! Procurar com persistência é um fator de risco: onde o campo semântico entre teimar e persistir afastam-se ou aproximam-se? Apenas a ignorância pode responder à qualificação de um ou de outro, pois os campos dos sentidos deslizam sem fronteiras pela interlocução do comportamento humano.
                   Perguntava-se o pai ainda no quarto do filho: " Quando um pai deve desistir?";  sem nada dizer, ardia em febre glacial o filho adolescente: "Por que ele desistiu de mim?" E permaneciam dependurados nas pontas do iceberg os dois homens que a vida aproximara por laços de liberdade dependente.
                 A primavera esperava, pacientemente, do outro lado da janela trancada.

 "No amor e na paz, a guerra é estratégia ultrapassada." Ivane Perotti


Ivane Laurete Perotti