sábado, 18 de junho de 2016

FLORES DE PANO



JARDINS URBANOS

- e os pés descalços cobrem os canteiros de cimento cru -

"O que mata um jardim não é o abandono. O que mata um jardim é esse olhar de quem passa por ele indiferente. E assim é com a vida, você mata os sonhos que finge não ver." Mário Quintana

                                     Lápides vazias atravessam a avenida abarrotada de transeuntes. Letárgicas, caiadas com o pó da miséria indolor à vista dos olhos indiferentes. Flores de pano gasto hasteiam-se no desenho da grama cinza. O asfalto engole os botões insistentes: espremidos embriões na sementeira desguarnecida. Borboletas não voejavam ali. Quebradas asas deitavam vida por entre as fissuras dos paralelepípedos empoeirados. Uma, duas, incontáveis lápides humanas encarceram almas inconscientes. No bojo de cada qual, o espaço de uma ilusão: a existência nega-lhes a consistência da imaterial ubiquidade. Onipresente, apenas a intenção de agarrar-se à sombra do jardim urbano. Não se lhes emprestam a definitiva morada. Morrer e morar são verbos de pertencimento subjetivo: morrem, não moram. Jamais compreenderão a deixa do poeta ausente: "Eu moro em mim mesmo. Não faz mal que o quarto seja pequeno. É bom, assim tenho menos lugares para perder as minhas coisas." ( Quintana ).
                                   O poeta mora, não morre. Mora na ânsia do pensamento nutrido, do discurso digerido à mesa das poéticas: estética da gastronomia. Guardanapos à boca faminta: discursos em travessas esquecidas imitam jardins sopesados de lápides sem inscrição. Lápides não pensam, confabulam significados no calcário dos parágrafos frios. Apenas o poeta entende porque nascem as palavras eivadas de pétalas coloridas. Apenas o poeta deita a mão sobre o dorso nu de sentidos e razões: por onde morre o homem do sepulcro caiado?
                                  Por sobre o pranto inaudível, a multidão desatenta esmaga as flores de pano que brotam dos pés à beira do asfalto. Pés de homens morridos, vagalumes sem lume, mendigos do interminável anoitecer.Tolhidos, desvalidos, indigentes do poder. Cavam-se os túmulos da sangria assistida.Fatídica democracia, artesã da inaudita cidadania: "Quem não compreende um olhar, tampouco compreenderá uma longa explicação" (Quintana)
                                   Insólita multidão atravessa a fila das lápides desabitadas. O homem está fora de seu túmulo e procura por uma rosa com alfinete de pressão. Uma flor de seda, gatilho para o jardim urbano. Cegos, todos cegos, perdem-se antes de encontrar a linha de absolvição: " Cego é aquele que não vê seu próximo morrer de frio, de fome, de miséria..." (Mário Quintana)

                                Este não é um texto, é um espinho. O mesmo espinho que atravessa a divisória entre a cidade e os jardins. Jardins de homens, codinome: ai de mim!, jardins plantados em trapos e nuvens de fome: gafanhotos da civilização.
                               Este não é um texto, é uma pedra. A mesma pedra que calça as lápides ambulantes no centro das cidades fantasmas, enquanto muitos escondem-se atrás de janelas tombadas.
                        Este não é um texto, é uma erosão. A mesma erosão que devasta o umbral da sociedade falida em apoio aos muros de contenção.
                             Este não é um texto, é um plágio da vida real. O mesmo plágio que  arde diante dos olhos em visita ao mundo natural.  
                        E este não é um fim! O mesmo fim que consolaria os indigentes, mendigos, miseráveis lápides que transitam pelos jardins de nossas cidades: "... atiro a rosa do sonho nas tuas mãos distraídas." ( Quintana)


Ivane Laurete Perotti