domingo, 23 de outubro de 2016

PELO BEM QUE NADA TEM



A POESIA QUE NOS SUSTENTA

- sem propósitos deliberados, a poesia esconde sentimentos –

“Fossem meus os tecidos bordados dos céus,/Ornamentados com luz dourada e prateada,/Os azuis e negros e pálidos tecidos/Da noite, da luz e da meia-luz,/Os estenderia sob os teus pés...”
William Butler Yeats

                                Descansar da vida é um desejo. Querer um amor, uma necessidade.  Viver o tempo da tristeza, uma obrigação. Garimpar a felicidade, um propósito. Deixar morrer as certezas, uma consequência do estar no mundo. Assim se desdobra a consciência do homem vivo: uma linha de sentimentos viajantes no tempo e na esfera das emoções.
                                 No descanso da vida, a vida bate à porta da inconstância. O aríete da incompletude chama de volta tantas vezes quanto os olhos fecham as taramelas da visão.
                                 No desejo do amor, a necessidade cria ilusões de poder e submissão: nenhuma compreensão da natureza livre do pertencimento.
                                O tempo da tristeza não paga aluguel. Inquilinos sombrios apossam-se de espaços entulhados pela culpa, perda, afastamento, e solidão. Insistentes, os moradores indesejados criam apegos e desativam os sentidos do deixar ir. Constroem a eternidade da morte em vida.
                                Garimpeiros da felicidade trocam moedas, títulos e heranças do saber, ter, sentir e alcançar. Acionistas da diversidade creditam ao destino o estado de júbilo. Investidores das causas pessoais assinam declarações de gozo em parcelas de emoções dúbias. Descrentes jogam à sorte o arbítrio da satisfação. Solitários plantam rosas. Poetas servem no prato das linguagens as frações do contentamento. Os céticos descartam a euforia que lhes chega sem avisar.
                                 As certezas morrem aos pés da sabedoria, mas ao seu funeral não comparecem os interessados.
                               Vivem e morrem os homens nas frentes de batalha pelo “agora”: inalcançável momento de eternidade.
                                Sobrevive a poesia no descanso da vida, útero fecundo para os embriões das emoções.
                                 Estou grávida de versos imaturos...

Ivane Laurete Perotti
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