sexta-feira, 11 de outubro de 2013

CONTO:

                DEPOIS DA MORTE....


                       _ Só resolvo isso depois da morte!
                       _ Você tem miolo mole, resolve logo e cai fora!
                       _...
                       _ O seu silêncio é minha certeza.
                       _ Não estou em silêncio!
                       _ Então diga alguma coisa...
                       _ Já disse: depois da morte fica tudo resolvido.
                       _ Viu? Estou certa! Você perdeu o senso de orientação. Como é que vai resolver depois da morte, Judite?
                       _ Eu é que sei.
                       _ Vou desistir de entender você, mulher. Vou desistir!
                       _ Vai nada, você é minha melhor amiga, vai ficar comigo até o fim.
                       _ O fim já chegou, Ju. Já chegou. Você não quer enxergar o óbvio.
                      _ Só é óbvio para você, para mim, falta um pouco mais para a corda apertar.
                      _ Que corda? Que corda?
                     _ A que ele mesmo colocou, você sabe...
                     _ Ai! Minha santa! Não sei mais o que lhe dizer.

                       Judite sequer ouvira as últimas palavras da amiga. Sua atenção estava voltada para o quadro que criava e alimentava a cada dia um pouco mais. Depois da morte, Sérgio saberia a verdade e então, seria tarde para pagar o preço devido e em muitas vezes aumentado. Quando alguém feito ele não desentorta o jeito torto com as lições da vida, tem de passar pelo inferno ainda em vida para ter uma chance, mais uma, de entender o que precisa.
                       Ninguém melhor do que Judite para saber do que Sérgio precisava. Acostumado a ser o centro das atenções naqueles rodeios que ela odiava até o fundo mais fundo da alma, seu noivo assumia as quatro patas que o rodeavam na vida que levava fora da arena. Era um quadrúpede manco! Manco e desgraçado pelo tanto de mulheres que namorava além dela. "Namorava" não era bem a explicação para o feito. Na boca dele, e delas, e dos outros todos que sabiam da desgraça que Judite carregava sem trégua, Sérgio "namorava" apenas com a Judite... apenas com a Judite! E que se entendesse bem a maldade da explicação que não parava aí. Ela via nos olhos de todos o que não precisava ser dito. E a prova estava ali, brilhando no dedo de noiva maldita, traída, carcomida pela raiva e pelo ciúme. As outras, as outras ele "comia", "trepava", pagava para ter o que ela dava de graça! De graça não! Ela própria pagava o preço de deitar com aquele quadrúpede manco. Era o coração dela que ardia em farpas, profundas feridas que não fechavam nem com reza braba para santo forte.
                           Mas faltava pouco. Agora faltava pouco para resolver o não resolvido.
                           Pedira e pedira e pedira ao Sérgio que parasse de pegar outras mulheres. Ela servia, não servia? Boa de carne nos lugares certo, boa de cozinha e de cama, sabia fazer um homem feliz. Era vivida, criada entre vaqueiros na roça do pai, entendia das mazelas por que passam as mulheres quando amam um homem só. E logo ela fora atingida por essa doença de coração entupido de amor desleal. Logo ela que se achava forte e pronta para desbancar qualquer um que a passasse para trás. Deixara muito homem chorando nas cercas da vida. Dissera não quando até queria dizer sim para mostrar quem mandava no coração dela. Não era mulher de fraquezas e choradeiras. Nem de meias palavras. Era direta, firme, certeira. Até conhecer o maldito que sabia mais do que ela sobre ela mesma. Infeliz da hora em deixara aquele manco de quatro patas entrar em sua vida, sua cama, seus pensamentos. Não chorava. Guardava cada gota de lágrima para depois. Depois da morte ela acertaria o que precisava acertar. Ele haveria de sentir as consequências de todo o empenho que tivera em pisotear o coração de uma mulher. Feito os palhaços da arena, naqueles rodeios de tristeza, com suas lanças coloridas, a espetar os pobres e miseráveis animais levados pela dor a mostrar a força que os consumia. Quando Judite via a baba branca e gosmenta escorrer pelos cantos da boca dos touros enraivecidos, açoitados, cutucados, empurrados para a luta, ela sabia que dentro dela a quantidade de raiva era muito, muito maior, mais densa, mais consistente, mais racional. Acumulava essa raiva com o cuidado de quem guarda o que lhe é caro, com a certeza tranquila de que dependia dela, da raiva, para manter-se em pé. Ela era um daqueles touros correndo pela arena. Com a corda apertada na virilha para aumentar a dor que já se fazia insuportável, só poderia avançar e avançar e avançar. Aprendera a avançar em silêncio, sem ofegar, sem alterar o passo, sem apressar a voz, sem deixar uma única gota de suor rolar pela testa elevada de mulher traída.
                       Ela estava lá dentro, na arena, vivendo a mesma agonia do touro encurralado, carregando no lombo o peso do vaqueiro fantasiado de homem. O touro recebia as esporas afiadas tantas vezes quanto ela era açoitada pelo desamor do noivo "mulherengo".
                    Judite aprendia a economizar a baba que fervia, tamanho o volume do sentimento e a lonjura do tempo que a acumulavam entre os órgãos do corpo e do espírito, se é que alguma coisa mais sutil poderia ainda sobreviver dentro dela. Sentia que chegava o fim. A solução estava mais próxima de seus dedos, de suas entranhas entupidas, de suas narinas dilatadas pela desesperança. A desgraça amar um homem infiel era paga de outra vida. Só poderia ser.
                         Depois da morte, Sérgio seria coberto pela ruína, pela força do mal que fizera, pelos vermes que corroem as vísceras dos homens envergonhados, desonrados, culpados.
                        De um jeito ou de outro, ele enfrentaria a conta volumosa da infidelidade. Não haveria descontos, pois Judite pagara os encargos antecipadamente e em dobro, toda a vez que mais uma vez se abria para receber o noivo manco no maculado leito de noiva cornuda, traída, atraiçoada.
                          E lá ele deixava as juras nunca lembradas ou cumpridas. Entre suas pernas, prometia amor fiel e único, como se por dentro dela ecoasse a inverdade traiçoeira e tomasse forma na vida desregrada que levava.
                         Judite não reclamava. Ouvia os gemidos do noivo e acompanhava os desejos que deslizavam pelos travesseiros quando cansado, Sérgio entregava os sonhos armados para logo mais.
                         Ele não dormia com ela. Só deitava. Era o tempo de refazer-se para a próxima empreitada na casa de "algumazinha" qualquer. Outra mulher ouviria seus roncos. E ela jamais saberia qual delas detinha o poder de entrelaçar-se em suas pernas peludas e arqueadas por uma noite inteira.
                        Sérgio dizia precisar descansar. Ela o deixava acreditar que acreditava no cansaço e na ida para casa.
                         Sérgio saía às pressas. Judite saía atrás. Mas não ia até o fim, pois conhecia o caminho que tomava em uma ou outra noite o noivo manco tomado pela luxúria das ofertas que abundavam entre as mulheres sozinhas que o esperavam.
                          O dia chegara. Armava-se na cidadezinha um grande e respeitado rodeio.
                          As ruas apinhadas de turistas, de gente de fora, de perto, de longe, quase que marcavam um meio sorriso nos lábios cerrados de Judite.
                          _ Mas quem lhe viu ontem, não lhe vê hoje!
                          _ Qual o espanto, Olga?
                          _ Ora, minha amiga! Nunca a vi mais bem arrumada. E esse vestido? Não me contou que estava a fazê-lo.
                         _ Levou muito tempo...
                         _ Ainda assim, não lhe vi à máquina!
                        _ Costurei aos poucos...
                        _ E o pano!? Nunca vi uma cor tão... tão branca!
                        _ É seda.
                        _ Seda? E o corte? Ficou perfeito!
                        _ Fiz molde...
                        _ Lhe cai muito bem.
                        _ Fiz pregas- machos...
                        _ Eu vi. E das mais difíceis, há de se dizer com certeza. Eixe só minha mãe ver essa beleza. Mas... aonde vai com toda essa perfeição?
                        _ Ora, para onde você vai também!
                        _ Vai assistir a primeira prova?
                        _ Vou!
                        _ Não acredito! Você detesta ver o Sérgio montar em...
                       _ Mas vou!
                       _ Hummmm! Então você vai é se mostrar para o Sérgio... está certa! Está linda!
                       _ Não vou me mostrar para ele.
                      _ Não!?
                      _ Vou cobrá-lo!
                        _ Ô Judite, não começa com o que não dá para entender.
                        _ É simples... você entenderá!
                        _ Judite...

                        Mais uma vez Judite não ouviu as últimas palavras da amiga. Já se encaminhava por entre a multidão de curiosos que passavam quase um por cima do outro.
                        Olga sentou logo na frente, mas não encontrava a amiga no meio de todo aquele burburinho. O rodeio era esperado durante o ano inteiro e durava mais de uma semana, o suficiente para levantar dinheiro na cidadezinha, mas também para deixá-la de pernas para o ar.
                          Guardava com o corpo e o braço alongado um lugar para a amiga. Preocupava-se com Judite. Sabia de toda a dor que a amiga carregava por dividir o noivo com a maior parte das mulheres da vila, de fora da vila e... ainda mais agora... mulheres novas na cidade, turistas, curiosas, carentes, descompromissadas. A semana seria um suplício para Judite e ninguém conseguiria contar com quantas mulheres Sérgio iria trepar. Mas faziam-se apostas em todas as esquinas. Era uma tradição dentro do rodeio que fora tomando corpo com a mesma velocidade com que Sérgio mostrava ter fogo e lábia para todas.
                           Não via Judite. Teria desistido de assistir a abertura? Desistira de ver Sérgio entrar como a atração principal do evento? Estaria mais perto da...
                             O barulho ensurdecedor da música, dos gritos, das palmas e das falas do narrador misturava-se fazendo qualquer um perder a clareza. Mas ela sabia para onde olhar. E quando olhou, mesmo sem ver, entendeu!
                              Embaixo do touro que Sérgio montava, o vestido branco da amiga tornara-se vivo como o sangue que sai em jatos de seu corpo pisoteado.
                                Olga sentiu náuseas! Uma tontura trazida junto com o silêncio das arquibancadas fez sua cabeça pender para o lado. Ainda viu os palhaços correrem para o meio da arena. Ainda viu um pedaço do tecido branco ser arrastado pelos chifres do touro enraivecido. Ainda viu que Sérgio não conseguira controlar o animal.
                                Depois da morte de Judite, a cidade parou.
                                Não foi possível explicar o acontecido. Um infortúnio era a palavra que brotava nas bocas entorpecidas pela cena terrível.
                                Mas o povo da cidade sabia que de infortúnio nada tinha no fato. Ainda menos Olga, a amiga que não entendera a tempo a solução que a amiga encontrara para cobrar suas dívidas de amor.
                                E para espanto da maioria, Sérgio dava-se por perdido. Além de manter-se dentro de todas as garrafas de cachaça que encontrava pelo caminho, passara a vagar sem rumo pelas noites quietas e ainda enlutadas da cidade dos rodeios. Caminhava arrastando as pernas bêbadas como que se logo ali fosse encontrar a noiva a esperá-lo.
                                 Gritava seu nome batendo na porta errada. Se ali já deitara uma vez, agora, nenhuma cama o receberia novamente, porque a culpa também faz parte da história das mulheres e parece que elas se unem mais quando a desgraça se torna visível: a culpa e as mulheres se dobram e desdobram sobre si próprias.
                                 Quem agora dormiria com Sérgio? Qual delas teria coragem de enfrentar o peso da parcela de culpa que indiretamente lhes caberia pela loucura de Judite? Não que alguém pronunciasse qualquer juízo de valor. Não! Julgar estava fora da alçada humana. Mas as pessoas pensavam sem dizer, pensavam alto. E quando pensavam, deixavam transparecer na linha dos olhos, da boca...
                                  Durante muito tempo Sérgio vagou chamando por Judite. Alguns chegaram a vê-lo de joelhos diante do vazio a rogar por algo não ouvido, diante de ninguém visto. Dois lugares que não exigiam muito esforço para serem preenchidos.
                                   Os dias sujos e alcoolizados levaram o vaqueiro ao descrédito total. Os dias sem começo nem fim costumam apontar para um caminho sem volta, sem esquerda e direita, só com uma linha reta aparecendo entre as duas sobrancelhas.
                                     Ninguém dizia "pobrezinho" do Sérgio. Nem mesmo aqueles que muitos trocados ganharam nas apostas das esquinas em noite de folguedo frouxo. Nem mesmo os companheiros de festa livre, nem os parentes, nem os amigos, ninguém. Ninguém olhava para o homem que se consumia em culpa, remorso e saudade.
                                      Apenas Olga tivera coragem de juntá-lo em um dia de muita chuva, quando corria o risco de morrer afogado na água barrenta avolumando-se na sarjeta.
                                      A amiga de Judite arrastara Sérgio para a varanda da casa ouvindo os protestos da mãe e os xingamentos do pai.
                                    _ Deixe esse traste onde ele está!
                                    _ Ele bem que merece o que passa.
                                    __...
                                    Enquanto observava o homem sujo e alcoolizado, Olga poderia jurar ouvir Judite dizendo:
                                     _ Depois da morte tudo se resolve!