sábado, 26 de outubro de 2013

O TEMPO...

O TEMPO SEM TEMPO DAS RELAÇÕES EFÊMERAS

                                                        “Quando acordou, sentiu o existir do mundo em
                                                          hora estranha, e perguntou assustado: _ Uaim
                                                          Mãe, hoje já é amanhã?!”
                                                                                                       João Guimarães Rosa
                                                                                                       Manuelzão e Miguilim

                                   A fugacidade da vida fustiga o rosto dos que mergulham no espelho do próprio umbigo. Ao primeiro levantar do pescoço entorpecido deparam-se com a imagem desfocada dos fatos que se foram e sinalizam não retornar: uma metáfora do desvio, da mentira maquiada em história inaudita, não vivenciada, roubada com aviso prévio e data antecipada. O tempo, invencível conselheiro da tenuidade, vence inglório as passagens sem peso sobre a inconsciência humana. Anestesiados, seguem correndo os que dilatam as possibilidades para um tempo logo à frente, na esquina da avenida entre o futuro e o inalcançável.
                                   Hoje já é amanhã! E o agora não passa de instável intuição sobre o momento presente quando o espelho do próprio umbigo aquebranta-se, envergonhado diante da manutenção vazia de uma existência sem reflexos.
                                   Homens destemidos tomam o instante entre as mãos calosas com a suavidade da compreensão adquirida e aprofundam sem lástima a percepção do ser e do estar acima das águas revoltas. A vida é um oceano abissal confrontado pelas linhas nas quais transbordam o horizonte infinito. Os destemidos reconhecem a impossibilidade de explicar a intuição do agora e mergulham, indômitos, na correnteza viril. Inteiros, amadurecem e vivem para sempre na eternidade dos sentidos merecidos.
                                   Homens sem sombra arrastam sonhos estéreis. Procrastinam em nome do tempo e à deriva da vida, afogam-se em vã esperança de um dia, talvez... quiçá amanhã... quem sabe, se Deus quiser...  se o sol brilhar... se a chuva vier... Na condicionalidade arbitrária do externo improvável formam-se as relações sem fundo, sem lastro para a expansão, sem potência para os sentimentos. Inconfessáveis pecados do não viver, do não sentir tomam a forma de relações ocas, vazias: estereótipo magnânimo de modelos e arquétipos contemporâneos.
                                   Eu fique... tu ficaste... ele ficou... nós ficamos...
                                   Não! Eu não fiquei... não fico... não ficarei... até mesmo porque a defesa desse modelo está para um ciclo pertinente à imaturidade da adolescência insegura. Um ciclo, uma fase, um período que, se apoiado pela atenção dos que já encontraram um sentido, transcende a simples experiência e abre espaço para o estar consciente.
                                   As palavras, atravessadas pelos sentidos impregnados nos fatos sociais e deles representantes, fazem moda. Está na moda a defesa das relações efêmeras, independente de sua natureza: amorosa, sexual, fraternal, familiar, empresarial,... Está? Modelagem, para mim, só enquanto metodologia matemática. E, quando bem empregada a favor do raciocínio lógico.
                                   Ficar à deriva da vida que passa do outro lado do espelho é adormecer sem ter acordado. BOM DIA!!!