domingo, 20 de outubro de 2013

PONTUANDO

O SUPERFATURAMENTO DA PACIÊNCIA: UM RISCO SOB MEDIDA

                                                     “Paciência: uma forma menor de desespero,
                                                      mascarada de virtude.”
                                                     Ambrose Gwinnett Bierce

                           Não estava à toa na vida; não ouvi a banda passar falando coisas de amor.
                          Perdi o “Abraçaço” de Caetano Veloso em Belo Horizonte e por virulentis ultionis, avento livremente: as manifestações dos professores cariocas não se equiparam à ordem grevista dos petroleiros diante do leilão pela exploração do pré-sal. As duas categorias estão eventualmente míopes.
                 Não penso que as cruzadas contra a corrupção instiguem os corruptos corruptores corruptíveis e alteiem a oferta do conceito à categoria do consumo garantido. Só existe corrupção em um nicho muito pequeno, estéril, débil, da máquina dominante e o homem, ser humano de natureza transparente, delineia seu lado obscuro fora da esfera pública.
                     Suspeito que os Black Blocs sejam profissionais da saúde fazendo uma apologia ao uso elegante das roupas pretas e ao manuseio profilático das máscaras antipoluição. Cansados da alva e asséptica realidade perfeita, expressam-se na conveniência de suas próprias falácias. Motivos? Ora! São auto- motivados de berço e beiço: pidões!
                          Imagino que o gás lacrimogênio lançado sobre as ruas apinhadas seja uma fórmula fitoterápica para a disseminação da felicidade coletiva em um país cuja democracia se faz com a assídua e consciente ação do povo. Ai! Sou brasileiro e não desisto... jamais!                                                      
                  Conjecturo que, Chico Buarque, ao escrever a estrofe “A minha gente sofrida/Despediu-se da dor/Pra ver a banda passar/Cantando coisas de amor...”, não fazia qualquer inferência política ao contexto histórico do Brasil de 1966. O gigante crescia a olhos vistos.
                             Suponho que o superfaturamento das vitualhas e víveres da residência do presidente do senado brasileiro seja um acontecimento acólito: sem cúmplices, não conivente, sem conluiados, sem parcioneiros.  
                              Acredito que a paciência do povo brasileiro esteja alinhavada na herança antropológica da ascendência aborígene, telúrica, silvícola, trancafiada no fundo bem fundo de suas raízes europeias. A América do Sul tem solo profícuo para a mescla de bons presságios e investimentos ambíguos. Aqui a magia se faz sem varinhas de condões, e a ironia, é voto sagrado na eleição de futuros obscuros e cadentes. Cândido voto. Cândido jogo sem o jogador homônimo. Pena!
                             Até quando, Ulisses? Não aquele que, convenientemente, sucumbiu com o peso do helicóptero. Falo do outro, do Ulisses de James Joyce, homem humanamente possível. Até quando?
                              Até onde a nossa paciência não é um risco calculado?
                           Por vingança virulenta e sem a plasticidade do latim, avento com liberta fidelidade: isso não é literatura, é a descrição da realidade.
                       
                                          “Não é fácil ter paciência diante dos que têm
                                           excesso de paciência.”

                                          Carlos Drummond de Andrade