domingo, 13 de outubro de 2013

SONHAR ACORDADO...

SONHAR NÃO É PECADO: DEIXAR DE FAZÊ-LO É IMPERDOÁVEL!

                                                                 “Se procurar bem você acaba encontrando.
                                                                  Não a explicação (duvidosa) da vida,
                                                                  Mas a poesia (inexplicável) da vida.”
                                                                   Carlos Drummond de Andrade

                                               Quando cessam os ventos do desejo, desenrolam-se as teias da razão, montanhoso anteparo diante do qual se esfarelam os sonhos imberbes.  Todo sonho é claudicante: agarra-se às próprias pernas e sobe a ladeira das emoções em riste, sôfrego, pungente, um tanto ridículo, ávido em desenrolar-se pelos ares da realidade manifesta.  Assim pulsa a vida entre sopros enredados por fios invisíveis e imperativos.  Acreditar no que ainda não é faz do espírito uma entidade menos errante e torna o homem capaz de transcender sua incompletude existencial.
                                                Entre os sonhos e a razão estende-se uma ponte de ilusões necessárias aos dois extremos: a ponte da fé; ativa faculdade imputada a alguns poucos visionários da ciência humana. Sonhar acordado é uma característica da inteligência criativa, da vontade de estabelecer um aporte para o inominável, para o inenarrável, o inaceitável, o intransponível, o impossível. Talvez, sonhar o sonho desejado seja uma forma lógica e produtiva de fazer a travessia para o imaterial mundo das possibilidades. Talvez.
                                             O sonho assume as feições do sonhador. Nem bom, nem mau, maximiza os feitos ainda não feitos, independente de sua natureza nebulosa. Entre as brumas dos sonhos espiam anjos e demônios. Todos cercados pela força da mesma crença: a ponte é construída pelo sonhador que não deixa cancelas pendentes. O bem e o mal passam pela mesma porta, atravessam a mesma ponte e procuram a realidade que os concebe. Do ventre inflado pelo sonho desdobrado nascem as probabilidades. Também as guerras encobrem sonhos que flagelam a humanidade travestindo-os em razões justificadas por desejos insanos de poder e soberania. O poder extermina os sonhos e sepulta-os sob os pés da esperança vazia.  
                                            Diz a máxima empírica que a história se faz com sonhos e lutas; como todas as máximas, adere-se, atemporal, a qualquer terreno ideológico e funda – ou afunda! – o discurso do interesse em evidência. Sonhar o sonho acordado não pertence ao campo minado das ideologias. Se assim o fosse, deixaria de ser sonho para tornar-se mais uma adereço da ilusão ideal – também necessária, até que se prove o contrário.
                                    Quando os ventos da vontade cessam, latejam febris os uivos da alma triste. Os olhos do corpo perdem o foco; os pés descalços maceram a terra seca e fazem crescer raízes amargas. O homem que carrega o espírito apagado derrama sangue sem cor pelas avenidas cruas e empedernidas de uma sobrevivência desprovida de figuras, cores e amores. Anjos e demônios recolhem-se para longe da cancela. A ponte necessária despenca, compacta, sobre o rio da vida que não mais corre para lugar algum.
                                   Sonhar é uma virtude! Construir o sonho é uma opção que se exibe em uma dimensão paralela: a da razão sem pretextos.
                                   
                                                    “ Fácil é sonhar todas as noites. Difícil é lutar por  
                                                       um   sonho.”

                                                    Carlos Drummond de Andrade