quinta-feira, 20 de novembro de 2014

LÁGRIMAS DE SAL

CONSELHO DE INCLUSÃO - PARTE I

          - a diversidade no lucro: estratégia ou evolução? -

"Eu sou um intelectual que não tem medo de ser amoroso, eu amo as gentes e amo o mundo. E é porque amo as pessoas e amo o mundo, que eu brigo para que a justiça social se implante antes da caridade." (o grifo é meu)
 Paulo Freire

                                        Já não se derramam lágrimas inocentes embaixo do sol. O inocente não chora: clama!
                                      Aos pés das montanhas que nos separam em cativeiros tipológicos, existem abismos intransponíveis: apenas as ideias deitadas fora dos interesses individuais poderiam saltá-los. Não saltam: fenecem dentro do ninho onde jamais brotarão. Elas, as ideias, exigem ser ventiladas pelo sopro de sentimentos que perderam a sua natureza natural: condição? Consequência da morte prematura da esperança, da justiça, da singularidade aceita e recomendada. Inexistem engenharias para a construção de pontes sobre os abismos humanos. Vinga aqui e agora, a repetição das histórias passadas: alimenta-se o poder de concentração onde mais se concentram os interessados. Natural! Não! apenas estratégico e previsível o processo que nos iguala em pelo menos uma categoria: a vontade do próprio umbigo! O nosso umbigo, desde sempre e para sempre! Ai de quem levantar a cabeça da própria pança para enxergar o outro, que não é outro, ao longo do caminho. Ai de quem emitir simpatia - não é o mesmo que simpatia, homônima da primeira, e que junta um arrazoado de conhecimentos mágicos para ser efetivada. Ou não! - em terra estranha. Ai...
                                    Na manhã que sobe a montanha da indiferença, nenhum olhar acorda cedo. Nenhuma boca chora o amargo da boca alheia. Bocas se abrem e fecham sozinhas, esturricadas, sedentas de pouco, muito pouco, tão pouco que migalhas pareceriam cordilheiras na comparação por quantidade. Mas, as bocas não choram e morrem apenas pela falta. Elas morrem pela qualidade inexistente. Elas morrem pela indiferença. Morrem sem o plasma da alma que, esturricada e desvalida, agoniza sem nome nas páginas da vida. O alimento ideal está fora do alcance das mãos que pedem  respeito, igualdade, expressão  e, quem sabe, se sobrar interesse e dedicação, um pouco de humanidade.
                                   Há comida na corrente ideológica - independente da sua concepção de verdade -  de um povo e há mesas postas para alguns: o discurso é servido em prato quente, a sobremesa vem em banho-maria e o antepasto... ah! O antepasto é feito de véspera, preparado por mãos hábeis e talentosas, marinado em muito traquejo, eloquência e persuasão. A dever o chef, ficam as lagartas das folhas verdes que também locupletam-se e mantêm a cadeia alimentar em franca ascensão.
                              O alimento da desigualdade está  na indiferença que é plantada a baixo custo. O adubo da indiferença é a aridez criada na motivação pessoal e intransigente: eu, de mim para mim, entre eu mesmo e mais eu próprio. A logística social da desumanização já carregou vários nomes, mas o bojo da receita política é sempre a mesma: GRAÇAS A DEUS ISSO NÃO ACONTECEU COMIGO! O outro - motivo das indiferenças , das carências, das injustiças, dos preconceitos - está suficientemente longe para não despertar o naco  de consciência social que caberia a cada um. Caberia, pois sem as ideias que despertam gigantes em anões, o circo da sociedade democrática não desce a lona: o espetáculo modifica o discurso, cria palavras e mantém tudo, exatamente tudo no lugar de interesse. Assim se faz a fábula virar folhetim: repete-se, repete-se, repete-se até se tornar a verdade de alguém, de alguns, de muitos.
                            Amar as gentes, o mundo tal qual dizia Paulo Freire, é o resultado de uma operação matemática que acontece de dentro para fora: só se dá o que se recebe, só se tem o que se dá, e a prova do resultado está na qualidade de vida de uma nação.   Prove-se!

                             Enquanto a inclusão não for uma realidade, há quem lucre em torná-la uma opção. 
Texto: Ivane Laurete Perotti