domingo, 12 de abril de 2015

OUVI DE UM CORAÇÃO

DIÁLOGO INTERNO

-  palavras e ondas vêm e vão mas, não retornam jamais ao mesmo lugar -

 " Ouvi de um coração que nenhuma forma de solidão assalta  aqueles que não se apoderam dos sentidos alheios  - só existe o 'alheio' entre os sentidos comuns a todos nós." Ivane Perotti

                                Nas linhas de um rosto correm segredos: sulcos deixados pelo arado das histórias vividas de dentro para fora. Rastros de sentimentos que  trilham caminhos singulares, ilham os olhos, margeiam a boca e comprimem a pupila da alma exposta.
                               O rol das partidas engendradas e das chegadas não  concluídas talham o rosto humano com  sinais e significados de humana contingência; e estulto é aquele que os lê na cartilha da mesmice óbvia. Na superfície de um rosto não  jorram simplificadas  sintaxes de imediata tradução. O trabalho de leitura exige mais do que a estética decodificação  oferecida à sorrelfa pelos alfabetizados em comportamento humano. Antes, há de se graduar em  sentimentos, cumplicidade, bondade, sensibilidade, cadeiras desfalcadas de método e práxis nas academias da vida e não recicláveis nas capacitações ordinárias, rotineiras, diárias. Pena! Pois a graduação de que falo não cobra ingresso, não instaura vestibulares, não examina a proficiência em línguas estrangeiras: apenas e tão somente oferece-se àquele que está presente na instância do mundo comum.
                            Estar presente ... barganha interna que edifica muros de indiferença e insensatez. Presentificar-se é uma escolha que exige consciência e esforço, que não comunga com a indiferença, que trava batalhas a favor da indignação, que não acomoda as emoções em espaços pré-moldados por medida de segurança pessoal. Estar presente  exige trabalho, esforço e  empenho espiritual - interno, ou seja lá o nome que se deseje dar ao que se passa no universo da subjetividade humana - é um caminho de vias interativas, contagiantes, perigosas para  quem deseja permanecer  empoleirado no meio do caminho: sulcam-se as faces sensíveis e capazes de encarar a leitura de outros faces. Há  riscos em sentir a história do outro: há riscos de se descobrir o amor e a compaixão simples e sem rótulos.
                        Ondas e palavras atravessam-nos em praias distintas: as primeiras podem carregar areia na ida e na volta - remanso indecifrável deixa à correnteza a capacidade de descansar enquanto trabalha -, as segundas, encarregam-se de empilhar sentidos e comoções nos rodamoinhos da memória emocional - trabalham em silêncio contínuo e inquestionável. Sentir ondas e palavras exige-nos um mergulho nu: sem equipamento de segurança e sujeitos à pressão que   altera o rosto, os olhos, a pele e o sistema circulatório - no centro do coração há uma ilha de nossos naufrágios e um mural para os olhos que não nos permitiram morrer afogados em sentidos alheios: os nossos sentidos alongados.
                       Nas guerras internas que travamos  é o diálogo com os sulcos externados na face da vida que nos permitem respeitar e valorizar a caminhada pessoal: ninguém, absolutamente ninguém pode dizer do outro o que não sentiu antes em si mesmo. E ainda assim, mesmo reconhecendo-se  na história alheia,  corre-se o risco de alterar a ordem do entendimento.  


" Pobre, infeliz e solitário é o homem que acredita ter exatamente o que precisa ilhado na falsa segurança de seu egoísmo doente e pernicioso." Ivane Perotti

Ivane Laurete Perotti