sábado, 23 de novembro de 2013

ABLEPSIA

                                           
AOS QUE OLHAM A VIDA DE DENTRO PARA FORA     
             
                                              “Há pensamentos que são orações. Há momentos nos
                                              quais, seja qual for a posição do corpo, a alma está de
                                              joelhos.”
                                                    Victor Hugo
                              As mãos em concha simulavam a noite diante dos olhos. Os dedos apertados um contra o outro criavam a ilusão da luz rarefeita. Ele sorria enquanto mostrava à criança curiosa a vantagem de aprender a olhar para dentro.
                               Dentro era um lugar que ficava distante do universo imediato de um ser em tão puerícia idade. Mas o neto insistia em aprender a ver como o avô via, ou deixava de ver.  E na tarde que se entregava aos abraços do sol, os dois partilhavam a mesma experiência, cada qual assentado ao banco de sua própria compreensão. Dois meninos em agudo crescimento: avô e neto dividiam a vida em parcelas degustáveis. O primeiro conhecia as dificuldades retratadas; o segundo desejava conhecê-las. Diferenças mínimas, mas suficientemente sugestivas para quem quer que tentasse entender aquela parceria.
                             Crescia o silêncio na sala grande. Atento às orientações do avô, o menino respirava em uníssono, sem retirar as mãozinhas de frente ao rosto. Juntos, perscrutavam o caminho ao alcance dos olhos fechados. A escuridão ilude os navegantes, especialmente se apenas dela se valerem. E não há risco maior do que acreditar piamente no quadro que as vistas recortam. Muitos sinais se perdem na extensa faixa que intermedeia os olhos físicos e sua capacidade de ler o mundo.
                              Ver é uma faculdade quase independente, um sentido interligado ao espírito bem mais do que ao corpo, mas a cultura do materialismo imediato nos afasta das potencialidades postas. Relegada ao plano do esquecimento, esta capacidade fenece com o tempo, o costume, a rotina, e passamos a acreditar que o ato de ver implica a presença de globos oculares.  Não implica! Tanto quanto enxergar e ver inscrevem-se na lexicologia com raízes semânticas diferentes, apesar do parentesco e do sentido comum ao ponto de referenciação. Qual dos dois verbos expõe nossa estultice diante do óbvio? Eu enxergo, já não vejo! Eu vejo, mas não enxergo! Questões que só podem vingar em mentes abertas para a vida enquanto equação sem perímetro, sem fronteiras axiológicas, sem as mesmices que se traduzem em comportamentos automatizados.
                               O menino com idade avançada sabia que a ablepsia alcançava o corpo, sabia! Tanto quanto entendia que ela poderia nascer na alma e jamais ser diagnosticada pela medicina clínica. Mas, sabia ele também que, ao aprender a olhar de dentro para fora, via sem deixar de ver e sentia mais do que via sem ver.
                            Era o que ensinava ao neto. No silêncio criado e na ilusão do escuro imposto pelas mãos em concha, os dois perscrutavam os sentidos menos sentidos. Viam as cores da vida assumirem sabores, cheiros e texturas inegavelmente belas e presentes. Tocavam a borda do céu sem sair do lugar; exploravam o universo interno prontos para vencer os monstros da intimidade aguçada. Os dois meninos dançavam a valsa do conhecimento travado no âmago de sua fonte primordial: o eu mesmo! O inviolável self!
                           Deslizar pelas fronteiras do inevitável é uma prática dos espíritos livres e maduros. Mergulhar na aceitação do imprevisível é tarefa hercúlea. Nem uma e nem outra impossíveis aos homens de boa vontade e ampla inteligência.

                            Na tarde abraçada pelo sol, avô e neto avançavam pelo caminho da visão imaculada: os dois viam!