CONTOS
PARA AMASSAR OS LENÇÓIS
compilação de causos
SEXO ORAL
Jana era uma mulher interessante. Era! Na
voz dela, deixara de ser desde o dia do desenlace.
Lino era um homem interessante. Era! Na voz dela, até o dia em que
descobriu que era apenas mais um.
Jana é uma mulher complicada. Na voz dele. Sempre fora, apenas fora
sempre!
Lino é um homem estúpido. Na voz dela. Sempre fora, apenas ela não vira
em tempo, a tempo e com tempo.
Ambos estão casados por
aquelas razões que a humanidade inteira conhece desde eras imemoriais. Conhece,
rejeita e corre atrás.
Jana e Lino amam-se e odeiam-se com a mesma intensidade a qualquer
momento e em qualquer lugar.
Lugar nunca é problema. O problema é o quando e como dar conta de parar
o que quer que seja.
Eles são um casal normal, comum e
previsível.
Jana e Lino ganham bem, transam bem e comem bem.
Bebem vinhos caros, vestem roupas de grife e trocam de carro uma vez ao
ano.
Fazem terapia três vezes na semana sem plano de saúde porque podem e
querem pagar alguém que não responde a perguntas sobre o quê fazer, como fazer
e por que fazer.
Têm casa na praia e na serra e partindo daí já não engrossam as
estatísticas atuais de que discutem porque não tem o que fazer, porque o
salário atrasou e porque as fraldas fétidas do quinto filho caçula ainda estão
em cima da cama do casal.
Nem fazem parte daquele
time que discute porque o filho do meio acordou de madrugada e migrou para a
cama maior, ou ainda daqueles que precisam dar atenção para o filho menor que
senta na cama, balança o leito e faz qualquer um sentir vontade de esganar!
Jana e Lino não têm filhos, não querem ter e amam o mesmo cachorro que
até hoje não conseguiu comer a cadela da vizinha. Segundo a vizinha: “tal dono,
tal cão”.
Viajam
para fora do país quando têm vontade e continuam encontrando motivos para
brigar, conversar sem razão e morder asperamente as palavras em outras línguas.
Qualquer língua: seja ela uma expressão do vernáculo ou uma extensão muscular
provida de vasos úmidos.
Visitam a
Patagônia em tempos nevados esperando entregar-se ao namoro tendo aos pés as lareiras
argentinas, mas sem êxito, ainda aguardam o dia em que dividirão o cobertor de
casal. Cansados do frio e das tentativas frustradas, costumam instalar-se em
quartos separados discutindo pelo telefone interno, quando prometem voltar
assim que a neve estiver mais firme.
Bondosos, sabem alcançar
folhudas gorjetas às camareiras silenciosas entre “pesos” a mais para cobrir o
vaso quebrado, o espelho partido e a marca na parede, prova de que até os
melhores hotéis descuidam-se da decoração a beira da cama do... homem.
Em dias de tentativa
hercúlea Lino e Jana escrevem bilhetes pelas paredes do quarto, da sala e do
banheiro, até um sem número deles entupirem o vaso sanitário. Culpa da Jana que
não é muito preocupada com o planeta Terra e tem a infeliz mania de jogar
papéis na pobre louça incumbida da árdua tarefa de esgotar os dejetos da vida
humana.
Culpa do Lino que escreve
“felicidade” com “ss” justificando ser esta a forma mais próxima da atualidade:
linguagem de computador. Linguagem prática: funcional! E só isso interessa!
Responsabilidade da Jana que deseja sempre, sempre, sempre chegar ao
fundo de todos os sentidos buscando o inatingível de todas as palavras. E só
isso interessa!
Jana e Lino formam um belo casal. Simpáticos para os olhares externos.
Doces com os filhos dos outros. Companheiros para os respectivos amigos. É o
casal que todos querem ter para vizinhos de casa.
Lino assa churrasco de búfalo e Jana modela folhas de rúcula ao molho de
iogurte francês.
Esbanjam charme entre os comensais até o momento em que alguma boa bunda
atravessa os olhos de Lino. Molhos e folhas a parte, quem comeu, comeu. Quem
esperou saiu antes de esperar mais.
As mães e os pais de Lino e Jana moram longe, mas se movimentam depressa
pelas vias de acesso à casa dos dois. Quem chega antes junta o primeiro prato. Quem fica por último dorme na
casa. Arranjos que funcionam desde que não passem da hora “H” "H",
aquela bendita hora em que nenhum dos quatro pode tentar mais nada!
Lino e Jana são bons de cama, de conversa, de palavras, de... bom! São
bons em jogar conversa fora e atirar palavras umas na cara do outro, mesmo que seja
a última coisa que possam fazer. Coisa que normalmente ativa a vida do casal
bem casado no tocante à capacidade e ao respeito de cada qual expressar a si
mesmo.
Ambos, os dois, juntos, amalgamados, conseguem dar conta de movimentar a
vida familiar no grande guarda-chuva que abarca a união de várias pessoas
nascidas antes deles. Tios e tias juntam as mãos pedindo pela clemência divina
diante do quadro ainda vazio de pequenos e ranhentos transgressores: possível
solução para o fato consumado do matrimônio enlutado por tantos esforços em
vão.
Jana ganha joias e presenteia Lino com etílicos liquidificados em altos graus.
Lino paga as joias e se aventura em trilhas suarentas que exigem além dos
amigos muitas garrafas de etc. e tal.
Lino aposta no clube, Jana recebe massagens e ambos aproveitam para
aliviar as tensões diárias de quem se estabilizou nos jogos financeiros. Sorte
na cama, azar no amor.
Jana descobriu no padrinho de casamento o amigo perfeito para as horas
de tédio. Lino curte a secretária nos momentos de lazer.
Lino e Jana decidiram abrir o casamento para outras experiências em que
não entrem sexo, drogas e músicas pesadas. Beberam ervas maceradas em cadinhos
de barro e vomitaram a bílis pelos olhos, ouvidos e garganta.
Depois das beberagens e algumas alucinações bem orientadas, Jana e Lino
decidiram dar um tempo. Moram na mesma casa com a nova consciência expandida e
florida pelo amor transferido: amigos, parentes e adeptos.
Cortaram o sexo consensual da
cama grande e se abstêm por ora de qualquer ato conjugal, em que pese um trepar
com o outro, sem especificações claras, definidas e comentadas sobre os outros
do outro.
Lino e Jana formam um casal normal; procuram alternativas para o que já
nasceu ferrado antes mesmo de ficar pior. Mas a boa vontade impera sobre os
fatos e agora, para o bem de todos, dizem que vão adotar outros cachorros para
colaborar com a paz mundial.
Jana, interessante, na voz dele, investe em
sua velha veia retórica, herança de toda a experiência na vida adulta com Lino,
e descobre-se escritora iluminada com um "best-seller na segunda edição:
SUPERANDO A CAMA!
Lino,
promissor, na voz dela, palestrante de primeira ordem fala sobre suas
performances enquanto marido fatal para milhares de homens tão perdidos quanto
ele fora em tempos passados a limpo.
Jana e Lino prometem riqueza, prosperidade,
paz e crescimento espiritual.
Lino e Jana arregimentam discípulos bons de bolso e edificam-se no
TEMPLO DO AMOR REAL. E seguem a vida pregando contra o sexo conjugal sem dar
conta das rimas pobres que se colam ao redor daqueles que tentam seguir-lhes no
exemplo do sucesso fenomenal.
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