sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Sem cores a DAS DORES


             
SEM CORES A DAS DORES

                                                    
                      Não era dia, nem noite, nem chovia, nem fazia sol.
                      Era um tempo sem tempo, feito aquele que faz os bichos perderem o medo dos homens e os homens encontrarem alguma razão.
                      Ele chegou assim: firme em sua carroça puxada por um casal de avestruzes.
                     Tantos potinhos carregava que mal se podia pensar onde o tal sentava. Se é que sentava, pois parecia flutuar entre as incontáveis “coisinhas” que carregava.
                      Coisinhas?
                      Bem, sabe-se lá como explicar o que era aquilo: redondos, redondinhos, compridos, achatadinhos, maiores, menores. Todos transparentes e bem fechados, isso dava para ver.
                     Coisas de outros mundos?
                     Era o que o povo começava a dizer.
                     Ele permanecia imperturbável diante da multidão que acorria e corria.
                     Crianças arregaladas, vovós sem avental, homens com sabão na barba... todos, todos estes e todos os outros que não contei olhavam sem entender.

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                   A curiosidade era tanta, tanta!, tanta! Que até o padre saiu para ver.
                   Êta!!! Coisas sem cabimento!
                   Benze que te benzo, sai logo daqui. Vá de retro carrocinha, nada sei de ti.
                   Nem benzedura nem cara feia.
                  “Ele” não interromperia seu ofício de jeito nenhum!
                   Queria era encontrar logo a praça.
                   Mas qual o quê?

                  A cidade era uma tripa esticada para dedéu.
                  Nada de ver uns canteirinhos redondinhos, bem floridos, banquinhos para namorados...
                  Cadê o miolo da cidade?
                  Toca para frente, olha para os lados e nada!
                  Dobra `a direita, entra `a esquerda e só vai mesmo aumentando o povo falador.
                  O padre não voltara à igreja, seguia com a multidão para onde ninguém sabia.

                   Caminhavam como que embriagados pela estranha visão.
                   Mas não era só isso.
                   Daquelas “coisinhas” todas exalava um odor... hum!, como dizer!?...
                   Diferente?
                   Ora, diferente não é palavra que se apresente para descrever o que acontecia, ou melhor, se sentia!!!
                   E como sentia!
                   Era um odor que parecia ser conhecido, mas não se identificava: seco e úmido ao mesmo tempo, nem forte nem fraco. Penetrante, curioso!
                  Seria adocicado?
                  Picante?
                  Cativante, talvez?
                  Era um odor conhecido, não sabido e muito diferente.
                  Não dava para deixar de sentir.
                  Entrava narinas adentro, descia pelos pulmões, chegava ao estômago _ fazia uma cutucadinha de não sei o quê _ e voltava mais forte, mais inebriante.
                 Enroscava no pescoço, roçava a pele, brincava com os cabelos, soltava os rabos-de cavalo e, sei não!, parecia fazer alguma coisa a mais.


                  Todos cheiravam, cheiravam, sorriam e cheiravam.
                  Até o padre inflava seu já descomunal narigão.
                  A multidão caminhava com o nariz à frente, desequilibrada pelo odor que entrava e entrava. Ligada por um fio invisível, seguia atrás da carrocinha.

                 Fio invisível?
                 Não é que talvez fosse esse o mistério?
                 Pois, havia ainda o som.
                 Sons, sons, sons é o que eu devo dizer. Diversos e indistintos sons. Finos, fininhos, suaves, fortes, longos, altos, baixos, de um chacoalhar contínuo e compassado.
                 Ao rodar da pequena carroça, liberavam-se os sons.
                 As coisinhas de outros mundos pareciam ter vida própria. Encostavam-se, saltavam e voltavam para o lugar como em um balé muitissimamente ensaiado.
                 Inebriante visão!
                 Ops! Visão??? lembrei-me do quadro que tudo isso criava. Digno de um Renoir em dia de inspiração (posso pensar em um Portinari, ou uma Tarsila do Amaral, ou um ...) Talvez os mestres das cores compreendessem melhor a magia da visão que se formava.
                  Ninguém desistia da procissão. Nem mesmo os gatos e os cachorros ficaram em casa. Saíram todos.
                 Ele já estava desistindo de encontrar a pracinha da cidade.
                Cidade sem pracinha?
                Cidade sem coração...
                Namorados sem banquinhos?
                Crianças sem gangorra?
                Hum!!! Isso não estava em seus planos.
                E agora?  A quem perguntar?
               Alguém poderia informar. Alguém?
             Alguém “quem” daquela multidão embasbacada?
             Grandes e arregalados olhos sobre inflados narizes aguardavam um movimento.
              Ele sorriu para si mesmo. Era sempre assim. Quanto menos alegre a cidade, menos o reconheciam. Mas isso não se constituía em um problema. Se é que problemas se constituíam.

              Voltando a “alguém", acabara de deparar-se com um par de olhos genuinamente inteligentes. Uma alma divertida vislumbrava-se por entre as pálpebras semicerradas.
              Lindo sorriso.
              Mais alguém se divertia com a situação. 
              Palavras bem ditas não se precisa dizer. Os olhos falam muito mais do que os ouvidos podem ouvir. A não ser que não se conheçam os sinais.
              As crianças sempre conhecem, e esta, ah!, esta era especialista. Não contava mais de cinco anos de idade _ idade cronológica, claro! ­__, e aprimorara-se para além da conta na linguagem do... !(Ora, falamos sobre isso depois.).
             Acariciando o casal de avestruzes, deu as informações necessárias: nem praças nem gangorras, nem banquinhos para namorar. As amendoeiras haviam secado por falta de poesia, as crianças desaprenderam brincar, não havia canteiros redondos, nem flores a perfumar. Só ruas retas e casas brancas. Muito brancas, como bem se podia ver.
              A escola ficava atrás da igreja e as duas eram brancas também. A rua até elas era reta, retinha, não era possível se perder. Ida e volta fazia-se de olhos fechados. A professora chamava-se Das Dores. Quem dera o nome? Ora, ela nascera Das Cores, mas tanto tempo se passara... ninguém sabia exatamente quando tudo iniciara, se é que tivera um começo. A troca de letras foi se dando aos poucos, sem reclamações por parte da professora. Ela não dissera "não" e então, trocaram seu nome. Houve uma época em que tentaram chamá-la de tia e daí, esqueceram que era professora. Confusão das confusões! Sabe como é! Tia é tia, profe é profe, é fessora, é psora, é sora, é pró, mas não é tia, né? Bem, o Renatinho da casa da esquina é sobrinho da Das Dores, mas ele ainda não vai para a escola. Então... você sabe! Áh! O nome do padre é Pedro, mas ele não deixa trocarem seu nome, não! Ele é tão gordo assim por causa do sino. Isso mesmo. Além de ser padre, ele bate o sino de seis em seis horas. Precisa comer bastante para aguentar. Aos sábados, ele ensina música. Mas nem sempre tem quem queira aprender. Daí, ele toca sozinho, sozinho. É quando eu mais gosto de ouvir. Parece que o padre Pedro fica todo colorido. De olhos fechados nem me vê entrar. Fico quietinho escutando e até esqueço-me de voltar. Você sabe como é!
               Minha casa também é branca, fica mais atrás. Vou  contar um segredo: eu  não gosto, não! Quando crescer, resolvo isso. Eu e outras crianças. Vamos colorir todas as casas, alargar as ruas...
               Circo? Não, nunca tivemos um na cidade. Minha avó conheceu um circo enorme.  Ela não mora mais aqui.  Belos avestruzes...
               E agora, José? Como fazer o que se tem de fazer em uma cidade sem praça?
               A multidão não se mobilizara para lado algum. Esperavam, esperavam impávidos. Talvez nem tão impávidos assim, mas a figura fica bem ao contexto se eu remexo no texto. Retornando ao texto, haveria de se pensar em algo. Posto que, a bagagem da pequena carroça contava com prazo de validade. Seguramente, necessitaria da colaboração da pequena grande criança. A boa linguagem do... (fica para mais tarde discutirmos esta questão) agora seria essencial, ou melhor, primordial _ (Do lat. Primordiale) Ver "Aurélio, O Dicionário da Língua Portuguesa, 8º Edição, Editora Positivo, Curitiba, 2010). Ao trabalho, então.
                Primeiro movimento de pernas, primeiro murmúrio da multidão, já não mais silenciosa.
                ÓH! Ele havia esquecido alguns detalhes.
                Realmente, descer de uma carroça requer sempre o cumprimento de certas regras de elegância e bom tom.  Bom tom? E desde quando pernas têm a ver com tom?– não se fazendo qualquer referência ao Jobim, é claro! Claríssimo, pois esse teceria uma ode a respeito do tema. Que tema? Pernas ou tom?, ou era sobre “bom” que se falava? Essa mania de comentar o texto pode distanciar o tópico. Pode? Bem, bem, bem, voltando à primordialidade da questão, e já com os dois pés no chão, diga-se muito rapidamente que a multidão dispersara-se em incontido alarido. Menos o especialista na linguagem ainda não comentada.
                   Êta!, criança porreta!
                  Aqueles olhos sabiam ouvir, entender, e conversar como ninguém. E era disso que ele precisava agora para tecer um plano ecologicamente rápido. Sem ciclos? Ora, em se aludindo ao que é ecológico, obviamente infere-se a ciclos. Mas entendendo-os encurtados, desta vez, pela urgência das circunstâncias. Bem dito? Bendito, também. Esperava ele.
                    Era um tempo sem tempo, mas os potinhos não poderiam esperar. Ou melhor, o que eles “guardavam” não era propriamente para permanecer “guardado”.
                  Um olhar mais detido mostrava uma cidade limpa. Seria limpa demais?
                  As ruas em paralelo formavam ângulos perfeitos. Retas irretocáveis.
                  Os paralelepípedos pareciam polidos a mão. Não o foram, dava a entender a sorridente criança, essa simetria toda era obra dos mesmos passos, nos mesmos lugares, indo e vindo, sem qualquer mudança de direção ao longo de vários e vários anos.
                   Conseguia imaginar? Se conseguia! A prova estava ali, lisa e fria, quase impedindo seus pés de permanecerem equilibradamente no mesmo lugar.
                   Como é que as pessoas conseguiam andar com segurança sobre algo tão deslizante? Ora, o costume, é claro! Acostumamo-nos por repetição, especialmente nos casos em que a ação não é discutida.
                    Hum!!!Grandes reflexões para cinco anos de experiência. Cinco? E desde quando se diz a idade de uma criança a partir de sua data de nascimento?
                   Concordância total. Não era à toa que aquele par de olhos deparara-se com os seus.
                   Bem, e o plano?
                   No mais eloquente silêncio, no meio da rua deslizante, ao pé da pequena carrocinha e tendo por testemunhas o casal de avestruzes, um plano foi elaborado para reviver o coração da branca e retilínea cidade. E entenda-se que reviver é o verbo correto para este contexto, posto ser impossível uma cidade nascer sem coração. Em algum lugar do passado ele pulsara, pulsara até irrigar a formação daquelas famílias todas. Quem sabe alguma vovozinha escondida em sua cadeira de balanço pudesse colaborar. Vovozinhas sempre escondem uma história a mais em suas belas mangas de renda, entre agulhas de tricô, no fundo das cestas de costura, dentro dos balaios de retalhos. Isso sem falar nas fotografias de canto amarelado, nas cartas amarradas com fitas de cetim...
            Urgente! Procura-se uma vovó sentada!
            Um biscoito?
            Não! Uma vovó!
            Ah! Se fosse um biscoito...
           Pela primeira vez desde o primeiro olhar, a criança emudeceu.
             Nos belos e profundos olhos instalou-se uma nuvem escura e aguacenta. O casal de avestruzes  aconchegou-se mais um ao outro, procurando proteção  diante de  tamanha tristeza.
            Tristeza nos olhos de uma criança?
            Em que parte eu fugi da história? Eu perdi o tema? Fiz comentários indevidos? Articulei mal alguma palavra? Errei os sinais? O texto, o texto não é este, voltarei para a primeira página e...  
             Não é o texto, é o contexto!
            Você quer uma vovó sentada em sua cadeira de balanço para abrir seus baús de boas recordações, não é? Pois veja. Você não encontrará nenhuma vovó, nenhum vovô em toda a extensão de nossa branca e limpa cidade. Eles não moram aqui. Eu lhe disse, você não leu a implicatura em minhas palavras? Vovôs e vovós não sabem andar em linha reta, nem conseguem firmar-se mais em nossas ruas frias e lisas. Eles são como nós, crianças, mas com uma desvantagem muito grande: não gostam de obedecer. Querem conversar, contar suas lembranças, querem abraçar todo o mundo, fazer doces e comê-los na hora errada, querem colocar-nos no colo quando fazemos traquinagem, gostam de cores , música e dança. Isso tudo seria um grande perigo para a cidade. Além disso, todos eles sabem onde era a antiga pracinha. Contam romances que nasceram ao pé do coreto, recitam poesias perdidas no tempo, ressuscitam flores secas roubadas de algum jardim. Eles ainda querem dançar valsas, eles querem sentar na pracinha para ver a banda tocar (a banda também não está mais aqui). Eles conhecem circos enormes, lembram o nome dos palhaços. Vovôs e vovós pintam o sete. E esta cidade só tem uma cor. Fizeram um plebiscito há muito tempo atrás. Ficou decidido que todos eles morariam para além das montanhas. Só podemos visitá-los uma vez ao ano, para não nos acostumarmos a tudo o que nos dão e contam.
      Posso furar a nuvenzinha de meus olhos agora?
      A nuvenzinha cresceu e encobriu a carrocinha. A água era salgada, parecia temperada a mão.
       Minutos eternizaram-se.
       O tempo que era sem tempo tornou-se frio. Foi quando ele resolveu acionar o plano  inicial.

        Subiu na pequena carroça e com a ajuda da criança, descarregou todos os potinhos.
        Era pote que não acabava mais: formas indescritíveis, espessuras variadas, tamanhos para todos os gostos, diâmetros impossíveis de calcular.
       À medida que desciam alteravam o contorno da rua.
       Desrespeitavam a calçada, invadiam jardins, subiam nos parapeitos das janelas, no compasso de uma frenética e inaudível sinfonia. Multiplicavam-se, multiplicavam-se como que detentores de vida própria.
       Não havia mais espaço em branco.
       Nem mesmo os telhados foram poupados.
       A igreja, o sino, os bancos vazios, a sala de música, a escola, a mesa da professora, a biblioteca sem livros, a quadra de esportes que não conhecia bola. Tudo tornara-se lugar para alojar  os  tais potinhos.
        Diferente da primeira cena, ninguém apareceu para perguntar.

        Fez-se silêncio na pequena cidade.
        Nenhuma janela abriu em par, nenhuma cortina correu. Se é que espiaram, ah! , isso ninguém viu.
        Se cochicharam com seus botões, disso também não se soube. Mas o fato estava ali. Alguma coisa estava acontecendo e estava mesmo!
         O tempo passara a contar e eis que a noite caiu.
         Os potinhos foram destampados um a um.
         Por quem?
         Ninguém viu.
         Ninguém percebeu.
         Também ninguém deu conta do paradeiro da carrocinha e seu novo ocupante.
          Mesmo porque passaram a noite às voltas com sonhos antigos, lembranças esquecidas, conversas pé-de-ouvido, sons, cores, vozes e odores entremeados com imagens vibrantes, figuras geométricas, flores fustigantes, afagos vibrantes.  

           Ninguém viu em que momento as cadeiras de balanço voltaram a ranger.
                  A noite teceu inúmeras colchas de retalhos.
             Uma colcha mais colorida do que a outra emolduravam camas e sofás. Fotografias amareladas saíram de suas caixinhas de rapé e tomaram espaço junto a outras fotografias. Os bancos da igreja encheram-se  na primeira hora da manhã. Ah! Que bela visão... o padre Pedro reforçou o café por três derradeiras vezes e tanto badalou o sino que moradores de outras cidades acorreram para saber das novidades.

            Curiosamente as ruas amanheceram com novos ângulos. Uma textura menos lisa cobria os paralelepípedos. As casas coloriram-se com os raios do sol. E no clímax das mudanças, ei-la surgindo bem no centro da cidade: a antiga pracinha. Com seu coreto, banquinhos e gangorras, flores, balanços e amendoeiras parecia recortada de uma tela de Monet.
Bela e vigorosa atraiu velhos e jovens, adolescentes e crianças, casados e descasados, apaixonados e desapaixonados. Até a professora Das Dores, em um momento de pura lucidez, subiu ao coreto, pediu a palavra e retomou seu nome. Das Cores, Das Flores, Dos Amores, nada mais ficou na saudade. Agora tinham alguma coisa para dizer, para contar, para recitar, para perguntar, para retorquir.
       A cidade colorira-se na mescla dos ciclos da vida, interativos entre si, entrelaçados por finos fios de amor e compreensão: trocas comuns entre os que respiram a mesma emoção.
       As cores aquecem os corações, assim como as pracinhas acalentam os sonhos e até as ilusões. Estas últimas são necessárias, tão necessárias ao mundo real que as faltando, as verdades emudecem. Quando não, uma verdade apenas torna-se ilusão, ditadura e negação.
     Se alguém escreveu que o ser humano acostuma-se com o sofrimento, esqueceu-se de registrar que mais facilmente ele aprende a ser feliz. E em  qualquer tempo fora de tempo, pode corrigir o que errou.
     Dos potinhos nada se fala, deles também não. Ficou uma certeza: raios de alegria multiplicam-se em saúde e bom-humor. Se foi mágica ou esperança, se foi sonho ou não, tanto faz para quem não teme mudar o que está.
        Quanto à discussão sobre a linguagem do... bem!,em sendo a linguagem do..., não se faz necessário qualquer discussão.
         Os sinais remontam à criação e se os primeiros homens sabiam usá-la, certamente cada um dos outros homens traz impresso no DNA o maior, o mais rico e mais expandido léxico da humanidade. Claro! Você está usando os sinais agora, caso contrário já teria largado este texto.
           Retomando a história do texto (ou o texto da história _ é interessante tentar descobrir quem dá origem a quem, quem está contando o quê de quem onde... o texto conta a história ou a história conta o texto? Deixa pra lá! O que interessa é continuar para chegar ao fim, mas não propriamente ao "THE END", pois esta história... ainda vai dar o que contar.), e em se tratando das mudanças que ocorreram na cidade, há de se observar que esta é uma história real. Então, a magia deverá prevalecer. Mas, nem todos sabem disso. Assim, em um final de tarde qualquer, depois de algumas crianças já terem recolhido suas travessuras, o branco bateu em algumas portas.  Bateu, entrou e...


             Bateu, entrou e...
             Como que vindo do nada, invadiu retinas e corações.
     Um frio compungido, entremeado de pequenos espaços soluçantes, abria janelas, levantava colchas, atravessava tapetes e quando não, estraçalhava as margaridas em flor.
              Os mais sensíveis juravam ouvi-lo. Diziam que fazia um som glotal, parecido com o som que algumas tribos indígenas do Alto Içana, AM, fazem. Esse som não tem descrição. Tanto se instalou o branco frio, que não mais se sabia quem viera primeiro: o branco ou o frio? Juntos, falavam os mais sábios, juntos, juntinhos, grudados, grudadinhos. Não é que na casa do Seu Nadinho já fazia mais tempo que dava para ouvi-los?
             Claro! Até já virara fofoca entre as Carolas de Padre Pedro. Nenhuma delas passava pela calçada do tal vizinho. Tinham certeza de que eram almas penadas pesadas e empanadas. Não se poderia diminuir a qualificação? Assim fica parecendo texto de almanaque italiano.... Ara! Onde já se ouviu falar em alma empanada? Empanada sim, empanada, daí o branco farináceo (ai, Jesus! Cata o dicionário para dar conta desta!) que se espalhava sorrateiramente pela cidade. Essa história de branco se espalhando de novo?...