domingo, 30 de dezembro de 2012

CONTOS AUMENTADOS II


  CONTOS AUMENTADOS II
                              HISTÓRIAS DE TROPEIROS        

 DOBRANDO CAMINHOS                                

            Dizem que a metade do século XVIII transcorria cheia de esperança lá pelo Brasil Colônia. A Coroa Portuguesa instalara na Vila de Taubaté, a Casa de Fundição de Taubaté, que alguns preferiam chamar de Oficina Real dos Quintos.
             _ Que Quintos, meu filho? Que Quintos?
             _ Os QUINTOS não me interessam, compadre. Só me interessa o "oro". Esse sim! O "oro" que vem prá cá!
             _ E você não sabe que nadica de nada desse "oro", "oro" fica por aqui?
             _ E não?
             _ E sim! Vai tudo, tudinho pro Porto de Parati.
             _ E é!?
             _ E eu não tô dizendo!? Não tô?
             _ Pois continue... continue...
             _ Depois vai lá pro Rio de Janeiro...
             _ Cidade das boa, compadre! Cidade...
             _ Mas também não fica lá!
             _ E não?
             _ E é!
             _ Ô!
             _ Segui tudito para o Reino... tudito, tudito de tudo! Não fica nadica de nada por lá!
             _ E de onde vem esse "oro" todo, compadre?
             _ E tu não sabi, homi? Tu não sabi?
             _ Só notíças daqui e dali, mas nada munto seguro, compadre!
             _ Ah! Tu tá é com o bocó seco!
             _ Quero enchê o bocó, compadre, quero enchê! Me conta de um tudo que eu tô pronto prá ajuntá as mula.
             Eram sempre as mulas a começar a corrida pelo ouro em Minas Gerais. Sem elas a moeda de troca poderia pesar demais nas costas dos tropeiros que negociavam entre uma cidade e outra. Mas o período prometia pelas bandas das terras mineiras. As histórias sobre o ouro fácil de encontrar corria de boca em boca e elevava o preço das cascudas que carregavam no lombo o sonho dos negociantes mais valentes.
               Acostumados a vender qualquer tipo de produto, os primeiros tropeiros a abrir caminho dobraram maus pedaços. Não era apenas a mata fechada ou os rios caudalosos que venciam a força de muita persistência. Alguns caminhos eram absolutamente desconhecidos e para chegarem precisavam reunir toda a força e o senso de direção. Sem contar com a capacidade das mulas de se manterem sobre as quatro patas quando barrancos desmoronavam, quando pedras entravam casco adentro e terrenos escorregadios se mostravam para lá de perigosos. As mercadorias sobre seus lombos aumentavam de peso à medida que as picadas eram abertas e o destino final ficava mais à frente.
               Caminhos conhecidos amenizavam o desconforto da distância, mas não diminuíam as dificuldades naturais daqueles lugares sem estradas adequadas ou outros meios de transporte.
               Assim corriam os dias no Brasil Colônia para aqueles que sentiam prazer em negociar, em levar mercadorias de todas as espécies para os lugares de difícil acesso. Mercadorias e notícias eram produtos de alto preço.
                _ Droba ali, cumpadre!
                _ Não dobra, não, meu filho! Segue reto. Mais adiante fica o rio.
               _ Tamo no caminho errado! Tô dizeno, tô dizeno!
               _ Esse é o caminho para a terra do ouro. Tenho certeza!
               _ Ô, cumpadre! Ter certeza aqui é coisa prá gente grande!
               _ E quer dizer o que com isso, meu filho? Está me ofendendo?
               _ Não! Não mesmo!
               _ Olha que eu dobro o braço na sua fuça!
               _ Carma, cumpadre! Carma! Já tamo chegano! Tamo chegano!