DESABRIGO
-
pelas crianças perdidas-
Saí de onde estava procurando uma lata que não estivesse furada. As que
eu juntara durante a semana não serviam para colocar sobre o fogo. Além disso,
já as passara adiante. Na verdade, eu queria cozinhar a batata inglesa que
encontrara perdida perto do mercado. Era perfeita: fresca, fresquinha. Alguém
derrubara sem perceber. Bom para mim. Muito bom! Iria cozinhá-la bem devagar,
esperando a hora de cutucá-la para saber se amolecia. A lata era grande, mas
servia. Fiz o fogo como de costume, juntando o que estava seco. Do outro lado
da calçada via as ondas batendo na areia. Estava quente e ensolarado, como
sempre, mas os poucos carros que passavam me deixavam à vontade. Não era o
lugar onde eu dormia nos últimos dias. Mas encontrara uma batata só e se fosse
dividi-la, não sobraria nem a casca fina para eu comer. Sentei alimentando o
fogo e vendo o mar chegar mais perto. Minha cabeça ainda não voltara da última
"escapada". Estava ficando cada vez mais difícil conseguir um bagulho
de qualidade. Os "homens" aumentavam as batidas na cidade e quem
sabia que precisava, aceitava qualquer negócio. Eu precisava. Não ficava sem
uma "pedra" de jeito nenhum. Mas a fome, uma vez ou outra, aparecia
assim, diante de uma batata inglesa encontrada por acaso. Sabia o que era uma
batata inglesa. Lembrava-me dos dias com minha família e de todos os pratos que
se poderia fazer com elas.
O
fogo, teimoso, pedia mais, mais, mais para esquentar a água. Ajeitava o papelão
grosso embaixo da lata, quando vi aquela senhora parar ao meu lado. Era
estranha. Vestia uma roupa esquisita. Cheirava a sabonete... eu acho! Muito
estranha. Olhava diretamente para mim. Perguntou, como se não soubesse:
_ O
que faz aí? Posso olhar?
Não
respondi. Olhar a batata coberta pela água dentro da lata? Coisa sem graça!
_ Posso?
Não
esperou pela minha resposta. Olhou para dentro da lata e me disse:
_
Você precisa de lenha!
De
quê? Lenha? Onde eu encontro isso?
_ E
tem muita água para uma batata só.
E
era ela que sabia?
_
Sua panela deveria ser menor.
Panela? A dona
estava a fim de me encher.
_
Posso sentar?
Não
olhava para a mulher estranha. Aquele cheiro de alguma coisa boa me fazia mal. Lembranças
misturavam sentimentos que eu preferia apagar.
_
Quantos anos você tem?
Ai!
Que saco! Mais uma daquelas que acreditam que o lugar de criança é na escola.
_ Você
sabe que dia é hoje?
Dia
de você encher o meu saco! Vá se danar, dona! Vá se...
_
Onde você mora?
PQP! Que
porcaria de mulher é essa? Deixa fazer o fogo e esperar a minha batata! É
muito? É?
_ Imagino que você tenha no máximo 16 anos!
Saco!
_ Posso ficar aqui? Prometo não atrapalhar!
Saco! Saco! Saco! Dá o fora, dona! Dá o fora!
Para ajudar, o vento que vinha do mar trazia o cheiro dela para mais
perto de mim. Só queria comer a batata em paz! Ela tinha muitas batatas em
casa, com certeza!
_ Eu nunca vi você por aqui antes.
Claro! Não dava para dormir em plena avenida todos os dias!
_ Você está sozinha?
Saco! Saco! Saco! Me dá alguma coisa e vai logo embora!
Minha cabeça embrulhava tanto quanto o meu estômago. Aquele cheiro...
aquele cheiro de coisa boa já estava incomodando. Andava assim fazia alguns
meses. Não se lembrava desde quando. Sem nada, eu enjoava. Era culpa dos
bagulhos misturados. Vai embora dona. Vai embora!
_ Você sabe que dia é hoje? Eu acho que essa batata vai demorar a
cozinhar. Você está com fome?
Que dúvida,
dona! Que dúvida!
_ Vou buscar algo para você. Me espere aqui. Volto logo!
Ela levantou e foi embora, mas aquele cheiro ficou ali. Entrava dentro
de mim virando enjoo. Saco! Nem o fogo estava ajudando. A água ainda não
esquentara o suficiente para ferver. Vomitei uma vez, duas, três. Não havia o
que colocar para fora. Só aquele líquido amargo que subia queimando meu estômago
e minha garganta. Saco! Tudo culpa daquele cheiro de...
A senhora estranha voltou antes da quarta vomitada. Quando eu me
ajeitei, ela sentou outra vez.
_ Sabe que dia é hoje?
Tudo outra vez! Lá estava eu me importando com o dia?
_ Eu trouxe carne de peru, algumas frutas e bolo... para você comer.
Hã?
Carne de peru? A dona deve ser rica ou está fazendo dieta.
_ Coma! É tudo para você!
Comi olhando a batata começar a se revolver nas primeiras borbulhas da
água.
_ Você sabe que dia é hoje?
Saco! Eu não sabia e nem queria saber.
Mas ao invés de responder,
vomitei parte do que havia engolido. Saco! Quando ganhava alguma coisa ainda
tinha que acontecer isso? E a mulher que não ia embora? Ela me estendeu um copo
grande cheio de refrigerante, desconfiei. Aquilo ajudou. Ela percebeu e serviu
mais. Gostei. Parecia diminuir o enjoo.
A batata dava sinais de cozimento. Pensei no que faria com ela depois de
cozida. Poderia guardar para...
A vontade de outra
"pedra" já dava sinais. Era assim mesmo. Cada vez ficava mais perto a
vontade de... cada vez o efeito era menor...
_ Você sabe que dia é hoje?
Não sei se foi a pergunta, se
foi a fruta que ela me estendeu, se foi o cheiro que ela ainda trazia, ou se
foi a falta da "pedra", mas sei que junto com o vômito veio uma
tontura ruim. Minha pele estava molhada. A camiseta suja grudava na minha
barriga.
_ Com quantos meses você está?
Meses? Que meses, dona? Que meses? Tenho dezesseis anos e há dois eu
vivo na rua. Saco! Vômito outra vez. Acho que a comida da dona não estava boa.
O suor foi aumentando e eu já não queria mais ter acendido aquele fogo. O mar distanciava-se
de mim como que se eu não merecesse olhar para ele. A rua parecia molenga,
feito o que eu colocava para fora do estômago. Queria uma "pedra".
Queria voltar para a rua dos fundos e...
_ Qual é o seu nome?
Precisava de uma "pedra". Já. Mas antes que eu pensasse em
levantar, senti que a calçada embaixo de meus pés subia até o meu rosto. Saco!
Precisava cheirar antes que...
A
lata grande demais ficou perto de meus olhos. Pude sentir o fogo me espiando
por entre as pequenas chamas. Queria levar a batata para... Poderia guardar a
batata para... por que, de repente, eu vomitava ainda deitada?
Apaguei. Quando senti aquele cheiro outra vez, abri os olhos. Estava
sobre uma cama estreita, e alguém dizia: "Não vai ter jeito. Não vai
aguentar."
Um suor frio escorria pelo meu rosto e alguma coisa a mais molhava minha
roupa. As vozes pareciam zumbido, mas eu sentia o cheiro daquele... daquele
perfume?
Todo o meu corpo doía. Precisava de uma "pedra" antes que...
_
Você ficará bem! Aguente firme!
Era aquela senhora estranha, segurando minha mão e sorrindo para mim.
_
Qual o seu nome?
Meu nome?
_
Posso chamar alguém de sua família?
Família?
Onde estava a minha batata?
_
Você sabe de quantos meses está?
De novo isso?
Apaguei querendo uma "pedra". Ouvi outras vozes misturando-se com
a voz daquela dona que ainda estava ali: "Não adianta! Estamos acostumados
a isso.", "Mas, ela é só uma menina!", "Tem que
tentar!", "A única coisa a fazer é esperar...".
Não sei quanto tempo se passou. Mas de um jeito estranho fui lembrando
meu nome. Lembrei-me de minha casa, de meus pais, meus irmãos... eu já gostara
de peito de peru. Nós o comíamos na véspera do...
"Agora é questão de horas"... "Impossível conter a
hemorragia.", "Não podemos fazer nada!"... "Ela..."
"Ficarei aqui com ela."
"A
senhora é quem sabe!"
As vozes diminuíram e eu fui sentindo uma leveza boa. Desligava de tudo...
melhor do que a "pedra". Muito melhor. Abri bem os olhos para aquela
senhora que voltara a segurar minha mão. Parecia alguém que eu não lembrava
quem. Eu estava em um lugar muito tranquilo e limpo. O cheiro que saía dela não
me causava mais enjoos. Acho que consegui abrir a boca junto com os olhos, pois
ouvi que a dona dizia:
_ Você pode falar. Estou aqui. Vou ficar com você.
Não falei. Queria dizer meu nome, mas...
A leveza que sentia era tanta que eu sabia que iria dormir para sempre.
Dormiria, dormiria, dormiria!
E a água na lata? Alguém apagara o fogo?
A mão daquela senhora limpava meu rosto. Não via mais os seus olhos, mas
ainda conseguia ouvir sua voz:
_ Você sabe que dia é hoje?
Sim. Eu lembrava!
_ Consegue me
dizer seu nome, querida?
Não! Eu não conseguia mais dizer o meu nome. Queria que ela soubesse...
Queria pedir a ela que procurasse...
_ Você deve ter um nome bonito. Tão bonito quanto você!
Nome...
"Maria!"
Fui embora sem conseguir dizer!
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