domingo, 30 de dezembro de 2012

CONTOS AUMENTADOS


CONTOS AUMENTADOS
                HISTÓRIAS DE TROPEIROS
                                                                                       


       OURO PARA VENDER

              - pedras para plantar -

               A mata fechada impedia o avanço das mulas. Esfomeadas elas obedeciam à ordem de seguir em frente sem dar muita atenção para os galhos que lhes feriam o couro marcado por outras bravatas. Era seguir e seguir abrindo caminhos onde nunca antes o homem entrara. Formavam um conjunto de sete mulas instigadas por um tropeiro que sabia assobiar e gritar como ninguém. Um assobio, um comando. Um grito, um susto e lá estavam elas tomando nova direção. Empacar no meio do caminho não era exatamente uma possibilidade que lhes cabia, precisavam continuar carregando o fardo que não era leve.
                A noite chegava e nenhum pouso existia por aquelas paragens. Possivelmente nenhum pasto as esperava de pronto. Certamente seriam alimentadas com o que era carregado ao lombo de uma delas. Aproximava-se a hora de pararem para comer e descansar. Tropeiro que se prezava sabia quando recolher seu rebanho e dar a ordem para descarregar. Mulas famintas e cansadas não chegariam ao destino sem antes provocar um prejuízo. Em tantas andanças, a ciência daqueles homens só não os superava em coragem e valentia.
                  O caminho fechava-se em si mesmo. Além do terreno irregular e de todas as pedras que já pisaram, as mata densa dificultava os movimentos.
                  A ordem fora dada. Paravam para receber a noite que descia como véu de noiva faceira.
                   _ Tá muito longe ainda?
                   _ Não tenho certeza, meu irmão. Ninguém antes passou por aqui.
                   _ Êta dificuldade!
                   _ Não reclame, Bonifácio. Tem muito ouro lá esperando por você.
                   _ Arre! Não tô arrecramando, só não vejo a hora de botá a mão naquela "orada" toda!
                   _ Também não é assim!
                   _ Como não? Eu soube que por lá, nas minas, tem oro saindo prá fora da terra e caminhando até as mão da gente.
                   _ Ô!
                   _ É pura vredadi! Me contaram isso ainda outro dia. Lá pras banda do litoral aonde chegam as mulas carregadinhas de "oro".
                   _ Ê!
                   _ Pois não credita ne mim? Não? Vô conta que nessas tal de mina até preda preciosa tem a se derramá pelas rua.
                  _ Ê!
                  _ Vredade de tropero, verdade pura! E tem mais...
                  _ Tem?
                  _ Tem! Eu vô trocá minhas mercadoria por predas prá prantá!
                  _ O quê?
                  _ Vô enchê o lombo das mula com preda preciosa prá prantá!
                  _ Mas... isso já é demais! Onde já se viu plantar pedra?
                  _ Pranta, sim! Essas lá das mina pranta! Pranta!
                  _ Impossível!
                  _ Pois eu lhe agaranto! Vô prantá preda preciosa prá tê uma prantação de predinhas! Vai vê! Vai vê!

                  O fogo aceso para aquecer e espantar os bichos escutou durante a noite as mais estranhas histórias. As mulas, acostumadas com o desejo de enriquecer daqueles homens matutos, fecharam os olhos esperando o novo dia.
                  Enquanto todos dormiam, o tropeiro que desejava plantar as pedras preciosas sonhava com uma plantação brilhante, colorida pelos matizes que enriqueceriam a sua vida. E não havia ali ninguém que pudesse contestá-lo! Vai que fosse verdade!
                   _ Vredade?
                   Quem druvida? Ops! Duvida?